“Durante
o tempo da Quaresma, meus queridos irmãos, deveremos exercitar-nos em orações,
jejuns e vigílias mais prolongados, a fim de podermos ungir as soleiras de
nossas portas com o precioso Sangue e
escapar do exterminador.”
Santo Atanásio ano 329
A Quaresma é o tempo
litúrgico de conversão, de reviver o nosso batismo, que a Igreja nos
proporciona para preparar para a grande festa da Páscoa. É tempo para nos
arrependermos de nossos pecados e de mudar de vida, correspondendo à graça de
Deus que nos concede esse dom.
A
Quaresma dura 40 dias: começa na Quarta-feira de Cinzas e termina na
Quinta-feira Santa à tarde. Ao longo deste tempo fazemos a nossa
parte para recuperar o ritmo e estilo de verdadeiros fiéis, que devemos viver
como filhos de Deus.
Trata-se de um tempo privilegiado de conversão, combate
espiritual, jejum, abstinência, esmola, sacrifício, oração e escuta da Palavra
de Deus. A característica fundamental e indispensável da Quaresma é a conversão
da vida velha para darmos passos na nova vida em Cristo! O número “quarenta” é
bíblico e cheio de simbolismos: os quarenta dias do Dilúvio, os quarenta dias
de Moisés no Monte Sinai, os quarenta anos de Israel no deserto, os quarenta
dias do caminho de Elias até o Sinai e, sobretudo, os quarenta dias do Senhor
Jesus no deserto, preparando sua vida pública, quando, após esses dias de
jejum, é tentado pelo demônio.
A cor litúrgica deste tempo é o roxo, que significa
penitência. A espiritualidade da Quaresma aparece em seu caráter essencialmente
cristocêntrico-pascal-batismal. Este tempo litúrgico é caminho de fé-conversão
para Cristo, que se faz servo obediente ao Pai até a morte de cruz.
Na Quarta-feira de
Cinzas, quando iniciamos a Quaresma, o Evangelho nos indica alguns caminhos
da espiritualidade quaresmal: a Oração, o Jejum e a Esmola.
Oração –
neste tempo os cristãos se dedicam mais à oração. Uma boa prática é rezar a
liturgia das horas, o terço, a via sacra, fazer a Lectio divina seja
individualmente, seja em comunidade. Outra sugestão pode ser diariamente rezar
um salmo após a leitura orante da Palavra de Deus, ou, para os mais generosos,
rezar todo o saltério no decorrer dos quarenta dias. É costume também rezar a
Via Sacra às sextas-feiras e a reza diária do Santo Rosário.
Jejum
–
na história da salvação é frequente o convite a jejuar. Já nas primeiras
páginas da Sagrada Escritura o Senhor recomenda que o homem se abstenha de comer
o fruto proibido: “Podes comer o fruto de todas as árvores do jardim; mas não
comas o da árvore da ciência do bem e do mal, porque, no dia em que o comeres,
certamente morrerás”. Dado que todos estamos entorpecidos pelo pecado e pelas
suas consequências, o jejum é-nos oferecido como um meio para estarmos mais
abertos à escuta da Palavra do Senhor.
O Jejum pode variar muito de
acordo com cada pessoa, e cada um deve escolher sua prática penitencial para
este tempo. Por exemplo: renunciar a um lanche diariamente, ou a uma sobremesa,
não comer carne às quartas e sextas-feiras, e tantas outras possibilidades. Na
Quarta-feira de Cinzas e na Sexta-feira Santa os cristãos praticam o jejum e a
abstinência de carne: o jejum nos faz recordar que somos frágeis e que a vida
que temos é um dom de Deus, que deve ser vivida em união com Ele. Os mais
generosos podem jejuar todas as sextas-feiras da Quaresma. Mesmo durante o ano,
existe a prática de, às sextas feiras, termos algum sinal penitencial.
Esmola - a
Quaresma é tempo de mais um forte empenho de caridade para com os irmãos. Não
há verdadeira conversão a Deus sem conversão ao amor fraterno (cf.1 Jo
4,20-21). A privação à qual o cristão é chamado durante a Quaresma, inclusive
através do jejum corporal, exige que seja sentida como exigência da fé para
tornar-se operante na caridade para com os irmãos. O jejum não tem significado
em si mesmo, mas deve ser um sinal de toda uma atitude de justiça e caridade
(cf. Is 1,16-17;58,6-7). De uma maneira muito especial, lembramos que no
Domingo de Ramos temos a “coleta da solidariedade” como consequência às
penitências quaresmais.
Portanto, Quaresma é um tempo propício para lutarmos
contra os nossos defeitos mais arraigados. Podemos aproveitar esta época
litúrgica para crescer em conhecimento próprio, fazendo um exame mais
aprofundado da nossa vida para descobrir o que nos aproxima ou afasta de Deus.
Depois, marcaremos metas palpáveis de melhora e nos esforçaremos por
atingi-las.
Se alguma vez falharmos,
recorreremos com humildade e contrição ao sacramento da Penitência, e
recomeçaremos com alegria. Aliás, essa é
uma prática indispensável na Quaresma: a celebração penitencial ou da
reconciliação, se possível muitas vezes durante este tempo. Se fizermos a
nossa parte, que é lutar sempre confiantes na ajuda de Deus, Ele não deixará de
nos conceder as graças necessárias para uma verdadeira conversão. E assim
chegaremos renovados para a Páscoa da Ressurreição, vivenciando a nossa vida
batismal.
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