sexta-feira, 12 de julho de 2019

Christus vivit: O Discernimento – Escuta e acompanhamento – nºs 291 a 298


Nºs 291 a 298

Há sacerdotes, religiosos, religiosas, leigos, profissionais e até jovens qualificados, que podem acompanhar os jovens no seu discernimento vocacional. Quando nos toca ajudar o outro a discernir o caminho da sua vida, a primeira coisa a fazer é ouvir. Esta escuta pressupõe três sensibilidades ou atenções diferentes e complementares:

primeira sensibilidade ou atenção é à pessoa. Trata-se de escutar o outro, que se nos dá com as suas palavras. O sinal desta escuta é o tempo que dedico ao outro. Não é questão de quantidade, mas de que o outro sinta que o meu tempo é dele: todo o tempo que precisar para me manifestar o que quer. Deve sentir que o escuto incondicionalmente, sem me ofender, escandalizar, aborrecer nem cansar. Tal é a escuta que o Senhor realiza quando Se põe a caminho com os discípulos de Emaús e os acompanha durante longo tempo por uma estrada cuja direção seguida era oposta à correta. Quando Jesus faz menção de continuar para diante, porque os dois discípulos tinham chegado em casa, estes compreendem que Ele lhes oferecera o seu tempo e, então, dão-Lhe o deles, oferecendo-Lhe hospedagem. Esta escuta atenta e desinteressada mostra o valor que tem para nós a outra pessoa, independentemente das suas ideias e opções de vida.

segunda sensibilidade ou atenção é no discernir. Trata-se de individuar o ponto certo onde se discerne o que é a graça e o que é tentação. Com efeito, às vezes as coisas que cruzam a nossa imaginação não passam de tentações que nos afastam do nosso verdadeiro caminho. Aqui preciso de me interrogar: O que é que, exatamente, me está a dizer esta pessoa? Que me quer dizer? Que deseja ela que eu compreenda do que lhe acontece? São perguntas que ajudam a entender onde se ligam os argumentos que movem o outro, e a sentir o peso e o ritmo dos seus afetos influenciados por esta lógica. Esta escuta tem em vista discernir as palavras salvíficas do Espírito bom, que nos propõe a verdade do Senhor, mas também as armadilhas do espírito mau, os seus enganos e as suas seduções. É preciso ter a coragem, o afeto e a delicadeza necessários para ajudar o outro a reconhecer a verdade e os enganos ou as desculpas.

terceira sensibilidade ou atenção consiste em escutar os impulsos para diante que o outro experimenta. É a escuta profunda do ponto para onde o outro quer verdadeiramente ir. Mais além do que sente e pensa no presente e do que fez no passado, a atenção orienta-se para o que quereria ser. Às vezes, isto requer que a pessoa não olhe tanto para o que gosta, os seus desejos superficiais, mas para o que mais agrada ao Senhor, o seu projeto para a própria vida que se expressa numa inclinação do coração, mais além da casca dos gostos e sentimentos. Esta escuta é atenção à intenção última, que é aquela que, em última análise, decide a vida, porque há Alguém como Jesus que entende e valoriza esta intenção última do coração. Por isso, Ele está sempre disposto a ajudar cada um a reconhecê-la e, para isso, basta que alguém Lhe diga: Senhor, salvai-me! Tende misericórdia de mim!

Então, o discernimento torna-se um instrumento de compromisso forte para seguir melhor o Senhor. Assim, o desejo de reconhecer a própria vocação adquire uma intensidade suprema, uma qualidade diferente e um nível superior, que responde muito melhor à dignidade da vida. Porque, em última análise, um bom discernimento é um caminho de liberdade que faz aflorar a realidade única de cada pessoa, aquela realidade que é tão sua, tão pessoal que só Deus a conhece. Os outros não podem entender plenamente nem prever de fora como se desenvolverá.
Por conseguinte, quando alguém escuta o outro desta maneira, em dado momento deve desaparecer para o deixar seguir o caminho que ele descobriu. Desaparecer como desaparece o Senhor da vista dos seus discípulos, deixando-os sozinhos com o ardor do coração que se transforma num impulso irresistível de se porem a caminho. De regresso à comunidade, os discípulos de Emaús receberão a confirmação de que o Senhor verdadeiramente ressuscitou.

Uma vez que o tempo é superior ao espaço, devemos suscitar e acompanhar processos, não impor percursos. Trata-se de processos de pessoas, que sempre são únicas e livres. Por isso é difícil elaborar receituários, mesmo quando todos os sinais forem positivos, porque tem-se de submeter os próprios fatores positivos a um atento discernimento, para que não se isolem uns dos outros, nem entrem em oposição entre si, absolutizando-se e combatendo-se mutuamente. O mesmo se diga dos fatores negativos: não são de rejeitar em bloco e sem distinções, porque em cada um deles pode ocultar-se algum valor que espera ser liberto e reconduzido à sua verdade plena.

Mas, para acompanhar os outros neste caminho, primeiro precisas de ter o hábito de o percorreres tu próprio. Maria o fez, enfrentando as suas questões e as suas próprias dificuldades, quando era ainda muito jovem. Que Ela renove a tua juventude com a força da sua oração e te acompanhe sempre com a sua presença de Mãe.

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