segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Apresentação de Nossa Senhora


Prestai atenção, rogo-vos, naquilo que Cristo Senhor diz, estendendo a mão para seus discípulos: Eis minha mãe e meus irmãos. Quem faz a vontade de meu Pai que me enviou, este é meu irmão, irmã e mãe (Mt 12,49-50).

Acaso não fez a vontade do Pai a Virgem Maria, que creu pela fé, pela fé concebeu, foi escolhida dentre os homens para que dela nos nascesse a salvação e que foi criada por Cristo antes que Cristo nela fosse criado? Sim! Ela o fez! Santa Maria fez totalmente a vontade do Pai e por isto mais valeu para ela ser discípula de Cristo do que mãe de Cristo; maior felicidade gozou em ser discípula do que mãe de Cristo. Assim Maria era feliz porque, já antes de dar à luz o Mestre, trazia-o na mente.

Vede se não é assim como digo. O Senhor passava acompanhado pelas turbas, fazendo milagres divinos, quando certa mulher exclamou: Bem-aventurado o seio que te trouxe. Feliz o ventre que te trouxe! (Lc 11,27) O Senhor, para que não se buscasse a felicidade na carne, que respondeu então: Muito mais felizes os que ouvem a palavra de Deus e a guardam (Lc 11,28).
Por conseguinte, também aqui é Maria feliz, porque ouviu a palavra de Deus e a guardou. Guardou a verdade na mente mais do que a carne no seio. Verdade, Cristo; carne, Cristo; a verdade-Cristo na mente de Maria; a carne-Cristo no seio de Maria. É maior o que está na mente do que o trazido no seio.

Santo Agostinho de Hipona

Tudo que sabemos da apresentação de Nossa Senhora no templo, não é narrado nas Sagradas Escrituras, mas em evangelhos apócrifos, em particular no Proto-evangelho de são Tiago, que a Igreja não considera inspirado por Deus.
Isto não quer dizer que o assunto da festa careça de probabilidade  histórica.

Segundo uma antiga tradição, Maria Santíssima, tendo apenas três anos de idade, foi pelos  pais, em cumprimento de uma promessa, levada ao templo, para ali, com outras  meninas, receber educação adequada  à sua idade e  posição.

A  Igreja oriental distinguiu este fato com as honras de uma festa litúrgica. A Igreja ocidental conhece a comemoração da Apresentação de Nossa Senhora desde o século VIII.  Estabelecida primeiramente pelo Papa Gregório XI, em 1372, só para a corte papal, em Avignon, em 1585, Sixto V ordenou que fosse celebrada em toda a Igreja.
                                                      
A Apresentação de Nossa Senhora encerra dois sacrifícios: A dos pais e da menina Maria.
Diz a tradição que Joaquim e Ana ofereceram a Deus a filhinha no templo, quando esta tinha três anos. Sem dúvida, foi para eles um sacrifício muito grande separar-se da filhinha que se achava numa  idade em que há pais  que queiram confiar  os filhos a mãos  estranhas.
Três anos é a idade em  que a criança já recompensa de  algum modo os  trabalhos e sacrifícios dos pais, formulando palavras e fazendo já exercícios mentais  que encantam e divertem, dando ao mesmo tempo provas de gratidão e  amor  filiais.  São Joaquim e Santa Ana não teriam experimentado o sacrifício em toda a sua amargura? O coração dos  amorosos pais  não teria sentido a dor da separação?  Que foi que os levou a  fazer tal sacrifício?  
A tradição fala de um voto que tinham feito. Votos desta natureza não eram raros no  Antigo testamento, mas em relação aos meninos. Os meninos  eram educadas em colégios  anexos ao templo, e ajudavam nos múltiplos serviços e  funções da casa de Deus.  Não erramos em supor que Joaquim e Ana, quando levaram a filhinha ao templo, fizeram-no por inspiração sobrenatural, querendo Deus que sua futura esposa e mãe recebesse educação e  instrução esmeradas.
                                                      
Grande era o sacrifício de Maria. Não resta dúvida que para Maria, a criança entre todas as  mais privilegiada, a cerimônia da  apresentação significava mais que a entrada no colégio do templo. Maria  reconhecia em tudo uma solene consagração da  vida a Deus, a oferta de  si mesma ao Supremo Senhor. O sacrifício que oferecia, era a oferta das primícias, e as primícias, por mais insignificantes que sejam,  são preciosas  por serem uma demonstração da generosidade do ofertante, e uma homenagem a quem as recebe.  

Maria ofereceu-se sem reserva, para sempre,  com contentamento e júbilo. O que o salmista cantou, cheio de  entusiasmo, traduziu-se na alma da bem-aventurada menina:  “Quão amáveis são os teus tabernáculos, Senhor dos Exércitos! A minha alma suspira e  desfalece pelos  átrios do Senhor” .  E entrarei junto ao altar de  Deus; do Deus que alegra a minha mocidade.
                                                
A vida de Maria Santíssima no templo foi a  mais santa, a mais perfeita que se pode imaginar. O templo era a  casa de Deus e  na proximidade de  Deus se  sentia bem a bela alma em flor.  “O passarinho acha casa para si e a rola ninho nos altares do Senhor dos Exércitos, onde um dia é melhor que mil nas tendas dos pecadores”.  Santo era o lugar onde Maria vivia. Era o templo onde os antepassados tinham feito orações, celebrado as festas; era o templo onde se achava o santuário do Antigo testamento, a arca, o trono de Deus no meio do povo;  era o templo afinal, de  que as profecias  diziam que o Messias nele devia fazer entrada.
                                                      
Naquele  templo a  menina Maria rezava e se  preparava  para a grande missão que Deus lhe tinha reservado. “Como os  olhos da serva nas mãos da Senhora, assim os olhos de Maria estavam fitos no Senhor  seu Deus”. 

Se bem que não se encontre na tradição hebraica a oferta de meninas ao templo (e menos ainda na tenra idade de três anos, como se lê nos apócrifos, segundo os quais “Maria morou no templo do Senhor como uma pomba, recebendo o alimento das mãos de um anjo”), os cristãos celebram hoje aquele particular oferecimento de Maria a Deus, feito no segredo de sua alma, que a preparou para acolher o Filho de Deus.


Esta menininha — diz são Germano de Constantinopla na homilia sobre a Apresentação — prepara o aposento para acolher a Deus, “mas não é o templo que a santifica e purifica, e sim a sua presença que purifica inteiramente o templo”.


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