Na Amazônia, a água é
a rainha; rios e córregos lembram veias, e toda a forma de vida brota dela: Ali,
no pleno dos estios quentes, quando se diluem, mortas nos ares parados, as
últimas lufadas de leste, o termômetro é substituído pelo higrômetro na definição
do clima. As existências derivam numa alternativa dolorosa de vazantes e
enchentes dos grandes rios. Estas alteiam-se sempre de um modo assombrador. O
Amazonas muito cheio salta fora do leito, levanta em poucos dias o nível das
águas. A enchente é uma paragem na vida. Preso nas malhas dos igarapés, o homem
aguarda, então, com estoicismo raro ante a fatalidade incoercível, o termo
daquele inverno paradoxal, de temperaturas altas. A vazante é o verão. É a
revivescência da atividade rudimentar dos que ali se agitam, do único modo
compatível com uma natureza que se excede em manifestações dispares tornando
impossível a continuidade de quaisquer esforços.
A água encanta no
grande Amazonas, que abraça e vivifica tudo ao seu redor:
“Amazonas,
capital das sílabas d'água,
pai patriarca, és
a eternidade secreta
das fecundações,
chegam-te rios como pássaros”.
capital das sílabas d'água,
pai patriarca, és
a eternidade secreta
das fecundações,
chegam-te rios como pássaros”.
Além disso é a coluna
vertebral que harmoniza e une: O rio não nos separa; mas une-nos, ajudando-nos
a conviver entre diferentes culturas e línguas. Embora seja verdade que, neste
território, há muitas “Amazônias”, o seu eixo principal é o grande rio, filho
de muitos rios: Da altura extrema da cordilheira, onde as neves são eternas, a
água se desprende, e traça trémula um risco na pele antiga da pedra: o Amazonas
acaba de nascer. A cada instante ele nasce. Desce devagar, para crescer no
chão. Varando verdes, faz o seu caminho e se acrescenta. Águas subterrâneas
afloram para abraçar-se com a água que desceu dos Andes. De mais alto ainda,
desce a água celeste. Reunidas elas avançam, multiplicadas em infinitos
caminhos, banhando a imensa planície (...). É a Grande Amazônia, toda ela no
trópico úmido, com a sua floresta compacta e atordoante, onde ainda palpita,
intocada pelo homem, a vida que se foi urdindo nas intimidades da água (...).
Desde que o homem a habita, ergue-se das funduras das suas águas e dos altos
centros de sua floresta um terrível temor: a de que essa vida esteja,
devagarinho, tomando o rumo do fim.
46. Os poetas populares,
enamorados da sua imensa beleza, procuraram expressar o que este rio lhes fazia
sentir e a vida que ele oferece à sua passagem, com uma dança de delfins,
anacondas, árvores e canoas. Mas lamentam também os perigos que a ameaçam.
Estes poetas, contemplativos e proféticos, ajudam a libertar-nos do paradigma
tecnocrático e consumista que sufoca a natureza e nos deixa sem uma existência
verdadeiramente digna: Sofre o mundo da transformação dos pés em borracha, das
pernas em couro, do corpo em pano e da cabeça em aço (...). Sofre o mundo da
transformação da pá em fuzil, do arado em tanque de guerra, da imagem do
semeador que semeia na do autómato com seu lança-chamas, de cuja sementeira
brotam solidões. A esse mundo, só a poesia poderá salvar, e a humildade diante
da sua voz.
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