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domingo, 17 de setembro de 2017

Igreja reconhece as Virtudes Heroicas do Cardeal François-Xavier Nguyên Van Thuân

O fundamento da Vida Cristã pelo Cardeal François-Xavier Nguyên Van Thuân:

Durante a minha longa tribulação de nove anos de isolamento, em uma cela sem janelas, às vezes com a luz elétrica ligada durante muitos dias e noites, às vezes na escuridão, sentia-me sufocado pelo calor e pela umidade, a um passo da loucura. Eu era ainda um jovem bispo, com oito anos de experiência pastoral. Não conseguia dormir, atormentava-me a ideia de ter de abandonar a diocese, de abandonar inúmeras obras que havia iniciado por Deus. Experimentava uma espécie de revolta em todo o meu ser.

Uma noite, do profundo do meu coração escuto Alguém dizer: “Por que você se atormenta desse modo? Você deve fazer uma distinção entre Deus e as obras de Deus. Tudo aquilo que você fez e deseja continuar fazendo – visitas pastorais, formação de seminaristas, religiosos e religiosas, leigos, jovens, construção de escolas, de casas para estudantes, missões para evangelização dos nãos cristãos... – tudo são obras excelentes, obras de Deus, mas não são Deus! Se Deus está querendo que você abandone tudo isso, faça-o imediatamente e tenha confiança Nele! Deus fará tudo infinitamente melhor do que você. Ele haverá de confiar suas obras a outras pessoas que são muito mais capazes do que você. Você escolheu somente a Deus, não as suas obras!”

Esta iluminação interior deu-me uma nova paz, mudou radicalmente o meu modo de pensar e ajudou-me a superar momentos quase impossíveis de serem superados fisicamente. Daquele momento e diante, uma nova força preencheu o meu coração e me acompanhou por treze anos. Todas as vezes que sentia minha fraqueza humana, renovava essa escolha diante das situações difíceis, e a paz nunca me faltou.
Escolher a Deus e não as obras de Deus. Esta é a base da vida cristã, em qualquer época.
Cardeal François-Xavier Nguyên Van Thuân


Cair na terra e morrer não é somente o caminho para dar fruto, mas também para salvar a própria vida, ou seja, para continuar a viver! Esta entrega, assumida pelo Servo de Deus François-Xavier Nguyên Van Thuân, expressa com eficácia o percurso de sua vida.

De sobremaneira destacamos o apostolado do Servo de Deus, que continuou sob o regime comunista, quando foi preso em 15 de agosto de 1975, Solenidade da Assunção, acusado de participação em um “complô entre o Vaticano e os imperialistas”.

Foram 13 anos de prisão e isolamento do purpurado vietnamita - período que procurou viver “preenchendo-o de amor” – antes de ser libertado em 21 de novembro de 1988.

O testemunho de fé, esperança e caridade do Servo de Deus, dado dia após com humildade e discrição é um constante convite à santidade coletiva, que encontra a sua máxima expressão na fidelidade a Deus e na ajuda recíproca ao percorrer o caminho de santidade.
A atitude de brandura, paciência e amor pelo próximo do Cardeal Van Thuan, fez com que “seus carcereiros se tornassem seus seguidores na escuta da Palavra de Deus”.

“O amor por Jesus crucificado e abandonado” foi o que marcou o período em que ele passou na prisão, o que serve de “modelo para toda a comunidade cristã”.



quinta-feira, 13 de agosto de 2020

13 de agosto - Beato Mariano Mullerat I Soldevila

Beato Mariano Mullerat I Soldevila
Beato Mariano Mullerat I Soldevila
Mariano Mullerat I Soldevila nasceu em 24 de março de 1897 em Santa Coloma de Queralt (Tarragona), onde, graças a sua família e a um grande bispo, ele cresceu na fé e de onde partiu apenas para estudar medicina na Universidade de Barcelona, ​​no período de 1914 a 1921.

Mariano não tem dificuldade em encontrar na profissão médica a saída natural para o chamado de serviço que ele sente, muito forte, dentro de si. Acima de tudo, ele adora ajudar os pobres, que não podem pagar, e os doentes no fim da vida, que ele acompanha segurando a mão até o fim, preparando-os também para receber os sacramentos. 

"A Catalunha será cristã ou não será". Esse é o compromisso preciso de Mariano, que em algum momento de sua vida também é eleito prefeito de sua cidade, Arbeca. Todo mundo vota nele, crentes ou não, porque "as pessoas o amavam", como disse o Cardeal Becciu. Com seu exemplo e seu testemunho, ele propõe um tema que após alguns anos será tratado no Concílio Vaticano II e estará no centro da exortação apostólica pós-sinodal "Christifideles laici" de João Paulo II: o compromisso dos católicos leigos para "sujar as mãos" na administração da sociedade. Mariano faz isso com atividade política, porque "ele já havia entendido o que era então um ensinamento de Paulo VI: que a política é a mais alta forma de caridade", continua o Cardeal Becciu. 

Mariano também é o marido atencioso de Dolores, com quem ele forma uma família que é uma célula realmente saudável em uma sociedade em crise: também se torna um pai amoroso de cinco filhas. Algumas se tornarão religiosas, um sinal de que Mariano e Dolores interpretaram bem a ideia da família como uma Igreja doméstica, permitindo que as meninas respirem o ar perfumado da Palavra de Deus que torna todas as coisas novas, experimentem fidelidade à Missa e ao Adoração do Santíssimo Sacramento. 

Além disso, o novo Beato também está muito próximo da espiritualidade dominicana. Sua cunhada, na verdade, era monja da Anunciação e ele, como médico, cuida da saúde das religiosas e como prefeito cuida das escolas administradas pela Ordem. 

Após sua morte, será uma das freiras a quem ajudava que vai se lembrar dele assim: “No início da guerra civil, ele nos visitava frequentemente para nos encorajar e ter esperança; ele nos pediu para sermos fortes diante do perigo que nos ameaçava e nunca deixamos de pedir sua ajuda".   

De acordo com a filha dele, ele amava os pacientes e, quando a família do doente era pobre, o médico deixava dinheiro debaixo do travesseiro. 

Além disso, Mariano era muito religioso. Na casa dele, mandou construir um pequeno oratório com um crucifixo. 

“Nós, suas filhas, temos o prazer de venerar esta imagem. Toda noite, antes de irmos para a cama, sentimos como se um ímã nos aproximasse daquele Cristo. Rezamos, damos graças e refletimos sobre como foi o nosso dia”, revela uma das filhas do médico. 

E aqui a situação na Espanha precipita. Em 13 de agosto de 1936, Mariano é retirado de sua casa e preso. A motivação oficial gira em torno de uma questão de facções políticas, mas a verdade é que Mariano é um cristão, um indivíduo agora desconfortável. 

A filha ainda lembra que, em 13 de agosto de 1936, às seis horas da manhã, a avó dela disse que era para todos saírem de casa porque tinham ido buscar o pai. Cerca de 25 guardas estavam na rua e cinco entraram e reviraram toda a casa. “Meu pai quis beijar o crucifixo. Um guarda o seguiu e ficou impressionado com a imagem. Tanto que quando os outros quiseram entrar, ele não deixou. Foi assim que o crucifixo o salvou”, disse a mulher. 

Adela Mullerat ainda conta: “Nós nos reunimos na entrada da casa para dar adeus ao meu pai. No bolso dele, ele levava um crucifixo e alguns remédios. Um deles serviu para curar um de seus perseguidores, que ficou ferido ao disparar a arma de fogo”. 

Consciente do destino que o aguardava, Mariano Mullerat proferiu as seguintes palavras ao se despedir da sua esposa: "Dolores, perdoa-lhes como eu os perdoo".

Quando o levam embora em uma van, uma mulher pede aos guardas, chorando, para permitir que o dr. Mariano visite seu filho gravemente doente. Ele não terá permissão, mas Mariano escreve algo em um pedaço de papel e a olha nos olhos: “Não chore. Seu filho não vai morrer. Dê a ele este remédio e reze para que Deus o ajude”, ele a consola.

Chegando na forca, antes de ser morto, as testemunhas dizem que até o fim ele ora em voz alta e pede a todos que o façam, tanto que um de seus torturadores o acerta na boca para fazê-lo parar. Mas não adianta. 

É assim que devemos aprender a ser cristãos. O legado que o novo Beato nos deixa, como nos disse o Cardeal Becciu: "A coragem de testemunhar a Cristo até o fim, em todos os ambientes, diante de todas as dificuldades, sempre".

Mariano Mullerat I Soldevila foi beatificado no dia 23 de março de 2019, na Catedral de Tarragona na Espanha, em cerimônia presidida pelo Cardeal Angelo Becciu, que na sua homilia declarou:

“Trata-se de uma bela figura de leigo, realmente interessante e edificante. Como médico, distinguiu-se pela sua religiosidade que o inspirava a se dedicar aos outros, sobretudo aos mais necessitados de assistência médica gratuita. Mariano era um homem moderno: como médico amou os enfermos; como político, serviu o povo, com caridade. Era um verdadeiro cristão: era fiel às práticas de piedade, à adoração ao Santíssimo Sacramento e à Missa. Eis a explicação desta sua força espiritual, da sua energia e da sua disponibilidade e amor com os outros. Diante da morte, Mariano encorajava seus cinco companheiros ao patíbulo, a perdoar seus perseguidores e algozes e a dar testemunho da sua fé em Cristo”.

 


sexta-feira, 13 de abril de 2018

Deus me chama a ser Santo - Gaudete et Exsultate – nºs 14 a 18

Para ser santo, não é necessário ser bispo, sacerdote, religiosa ou religioso. Muitas vezes somos tentados a pensar que a santidade esteja reservada apenas àqueles que têm possibilidade de se afastar das ocupações comuns, para dedicar muito tempo à oração. Não é assim. Todos somos chamados a ser santos, vivendo com amor e oferecendo o próprio testemunho nas ocupações de cada dia, onde cada um se encontra. 
És uma consagrada ou um consagrado? Sê santo, vivendo com alegria a tua doação. 
Estás casado? Sê santo, amando e cuidando do teu marido ou da tua esposa, como Cristo fez com a Igreja.
És um trabalhador? Sê santo, cumprindo com honestidade e competência o teu trabalho ao serviço dos irmãos. 
És progenitor, avó ou avô? Sê santo, ensinando com paciência as crianças a seguirem Jesus. 
Estás investido em autoridade? Sê santo, lutando pelo bem comum e renunciando aos teus interesses pessoais.

Deixa que a graça do teu Batismo frutifique num caminho de santidade. Deixa que tudo esteja aberto a Deus e, para isso, opta por Ele, escolhe Deus sem cessar. Não desanimes, porque tens a força do Espírito Santo para tornar possível a santidade e, no fundo, esta é o fruto do Espírito Santo na tua vida. Quando sentires a tentação de te enredares na tua fragilidade, levanta os olhos para o Crucificado e diz-Lhe: "Senhor, sou um miserável! Mas Vós podeis realizar o milagre de me tornar um pouco melhor". Na Igreja, santa e formada por pecadores, encontrarás tudo o que precisas para crescer rumo à santidade.

Esta santidade, a que o Senhor te chama, irá crescendo com pequenos gestos. Por exemplo, uma senhora vai ao mercado fazer as compras, encontra uma vizinha, começam a falar e… surgem as críticas. Mas esta mulher diz para consigo: "Não! Não falarei mal de ninguém". Isto é um passo rumo à santidade. Depois, em casa, o seu filho reclama a atenção dela para falar das suas fantasias e ela, embora cansada, senta-se ao seu lado e escuta com paciência e carinho. Trata-se doutra oferta que santifica. Ou então atravessa um momento de angústia, mas lembra-se do amor da Virgem Maria, pega no terço e reza com fé. Este é outro caminho de santidade. Noutra ocasião, segue pela estrada fora, encontra um pobre e detém-se a conversar carinhosamente com ele. É mais um passo.

Quando estava na prisão, o Cardeal Francisco Xavier Nguyen van Thuan renunciou a desgastar-se com a ânsia da sua libertação. A sua decisão foi “viver o momento presente, cumulando-o de amor"; eis o modo como a concretizava: "aproveito as ocasiões que vão surgindo cada dia para realizar ações ordinárias de maneira extraordinária”. 

Deste modo, sob o impulso da graça divina, com muitos gestos vamos construindo aquela figura de santidade que Deus quis para nós: não como seres autossuficientes, mas “como bons administradores das várias graças de Deus” (1 Ped 4, 10). 


segunda-feira, 4 de julho de 2016

Beata Maria Crucifixa Curcio



Ao servo preguiçoso e arrogante da parábola dos talentos contrapõe-se positivamente a figura feminina que é apresentada pelo livro dos Provérbios. Neste contexto insere-se convenientemente com o seu carisma materno e com o seu gênio feminino a beata Maria Crucifixa Curcio, mulher hábil e laboriosa, atenta a ocupar-se das necessidades do seu próximo, até o fazer tornar-se "a sua família". Também a Madre Maria Crucifixa soube "procurar para si a lã e o linho" e elaborá-los de boa vontade "com as suas mãos" para fazer crescer a família que Deus lhe confiou. Encontrou no Espírito do Carmelo, e muito concretamente no carisma contemplativo missionário de Santa Teresa do Menino Jesus o estímulo para fundar a congregação carmelita das Missionárias de Santa Teresa do Menino Jesus.
O amor a Jesus guiou-a por um caminho que muitas vezes foi difícil e amargo, fazendo-lhe experimentar o que significa ser "crucificada", como Jesus, por amor dos irmãos, sempre presentes nas suas atenções, também nos momentos de maior intimidade com Deus. Escrevia no seu Diário espiritual:  "A ideia de partir ao encontro dos meus irmãos enchia-me o coração de alegria... A minha ternura cresce sempre... e com esta ternura amo as filhas que a Providência me confiou, amo o mundo inteiro, amo a natureza com todas as belezas".
A Madre Maria Crucifixa foi uma mulher simples e forte, imbuída pelo amor de Deus, toda propensa para o céu, mas atenta a inclinar-se sobre a terra, em particular sobre a humanidade sofredora e necessitada. Ela soube haurir da sua fé profunda e do amor apaixonado à Eucaristia inspiração e alimento contínuo para a sua busca de santidade. A beata Madre Curcio soube conjugar, nos gestos ordinários da sua vida quotidiana, a oração com a ação, sendo esta última entendida como recuperação dos últimos, e mais precisamente, como acolhimento e formação da juventude mais abandonada. Precisamente por esta sua normalidade e concretude é um modelo no qual inspirar-se nos dias de hoje, porque a sua mensagem é de grande atualidade.
Cardeal José Saraiva Martins – Homilia de Beatificação – 13 de novembro de 2005

Maria Crucifixa Cúrcio, fundadora da Congregação das Irmãs Carmelitas Missionárias de Santa Teresa do Menino Jesus, nasceu em Íspica – Itália, em 30 de janeiro de 1877. Seus pais eram: Salvatore Cúrcio e Concetta Franzò. Sétima de dez filhos, transcorre a infância em um ambiente familiar culturalmente e socialmente elevado, manifestando logo uma inteligência vivaz, um caráter alegre, decidido e determinado, amadurecendo, nos primeiros anos da adolescência, uma elevada e notável tendência à piedade, atenção e solidariedade para com os mais fracos e marginalizados.

Em casa recebe uma severa educação, de rígidos princípios morais, em virtude dos quais o pai não só a limita em seu anseio de uma intensa vida de fé, mas, seguindo o costume da época, não lhe consente nem mesmo prosseguir os estudos, concluindo apenas a sexta série.
Esta privação lhe custou muito, mas, ávida de conhecimentos, busca conforto nos livros da biblioteca da família, onde encontra a Vida de Santa Teresa de Jesus. O confronto com esta Santa a faz conhecer e amar o Carmelo, conduzindo-a aos estudos das “coisas celestes”.
Em 1890, com a idade de 13 anos, não obstante as dificuldades, obtém a permissão para se inscrever na Ordem Terceira Carmelita, recentemente reconstituída em Íspica. Compreende os projetos divinos sobre ela na frequência assídua ao Santuário de Nossa Senhora do Carmo, onde cresce no conhecimento da espiritualidade carmelita, nutrindo uma intensa devoção à Mãe do Carmelo que lhe “havia raptado o coração desde a infância”, confiando-lhe a missão de “fazer reflorescer o Carmelo”. 

Querendo partilhar o ideal de um Carmelo Missionário que unisse a dimensão contemplativa com aquela especificamente apostólica, inicia uma primeira experiência de vida comum com algumas companheiras Terceiras, em um apartamentinho da casa paterna, colocado, enfim, à sua disposição pelos irmãos. Em seguida transfere-se para Módica, uma cidade vizinha, onde lhe foi confiada a direção do Conservatório “Carmela Polara”, para acolhida e assistência de meninas órfãs e necessitadas, na intenção de fazer delas “mulheres estimáveis, úteis a si e à sociedade”.
Depois de muitos anos de provas e tribulações na vã tentativas de ver a sua obra, de qualquer modo, sustentada e oficialmente reconhecida pela autoridade eclesiástica local, consegue finalmente encontrar apoio e partilha do seu ideal missionário em padre Lourenço van den Eerenbeemt, Carmelita da Antiga Observância. Indo a Roma no dia 17 de maio de 1925, para a canonização de Santa Teresa do Menino Jesus, no dia seguinte, acompanhada por Padre Lourenço, visita Santa Marinella, no litoral norte de Roma. Ficou profundamente emocionada com a beleza natural dessa região, mas também com a extrema pobreza da maioria dos seus habitantes. Compreende ter chegado finalmente ao porto. Tendo obtido a permissão oral para uma experiência, do bispo da diocese de Porto Santa Rufina, Cardeal Antonio Vico, em 3 de julho de 1925, se estabelece definitivamente em Santa Marinella e, no dia 16 seguinte, recebe o decreto de afiliação da sua pequena comunidade à Ordem Carmelita, selando assim para sempre a sua pertença à Maria, no Carmelo. 

Em 1930, depois de sofrimentos e cruzes, o seu pequeno grupo obtém o reconhecimento da Igreja com a ereção da Congregação das Irmãs Carmelitas Missionárias de Santa Teresa do Menino Jesus a Instituto de Direito Diocesano, por parte do bispo da diocese portuense, Cardeal Tommaso Pio Boggiani.
“Levar almas a Deus” é o objetivo que anima as suas múltiplas aberturas de obras educativas e assistenciais, na Itália e no exterior. Por isso exorta suas filhas a levar às famílias uma palavra de vida cristã. Pode realizar o seu desejo missionário em 1947 quando, sobre as cinzas da segunda guerra mundial, envia as quatro primeiras Irmãs ao Brasil, com a única recomendação de “não esquecer os pobres”, continuando a sonhar com horizontes sempre mais vastos, onde soltar as velas do seu Carmelo missionário.
Marcada por toda a vida com uma saúde precária, e pelo diabete, esforça-se em acolher sempre com fortaleza e serena adesão à vontade de Deus. Transcorre os últimos anos na enfermidade, continuando a rezar e a doar-se às suas Irmãs, para as quais oferece um precioso exemplo de virtude, sempre mais transparente e luminoso.
A sua oração é um diálogo íntimo e contínuo com Jesus, com o Pai e com todos os Bem-aventurados, inspirado pela confiança filial, amor esponsal, sentimentos de gratidão, louvor, adoração e reparação que procura transmitir, antes de tudo, com o exemplo de vida, às suas filhas espirituais e a todos que dela se aproximam, alimentando sempre “o desejo de ter filhas santas, filhas eucarísticas, filhas que sabem rezar”.

Cultiva intensamente a união de amor com Cristo na Eucaristia, empenhando-se inteiramente em satisfazer seu desejo de reparação “ao imenso número de almas que não conhecem e não amam a Deus”, oferecendo-se como vítima de expiação junto “com o grande Mártir do Amor”. Uma reparação que a faz capaz de partilhar as pena e os anseios dos homens e mulheres, atenta a todas as necessidades, com caridade e justiça, dando voz a quem não tem, contemplando o rosto do Crucificado naquele desfigurado de todo sofredor. Por isso, exorta as Irmãs a “amar santamente os tesouros que a bondade divina lhes confia, as almas jovens que são a esperança do amanhã” e a não se pouparem no serviço da juventude mais humilhada e abandonada – para “ tirá-las do meio da lama”, para restaurar em toda criatura a dignidade e a imagem de filho de Deus.
Com a Mãe de Jesus aprende a ser mãe daqueles que são necessitados. Com Santa Teresa do Menino Jesus encontra alegria espiritual “no assíduo e fiel cumprimento dos próprios deveres”, realizando “com amor e dedicação até mesmo as coisas mais insignificantes”. Vive com humildade, simplicidade, alegria e ternura as relações humanas, realizando cotidianamente a interação entre fé e vida, “no viver juntas tranquilamente” a laboriosidade de Marta e a profundidade mística de Maria.

Em 04 de julho de 1957, em Santa Marinella, serenamente retorna para sempre ao Cristo, seu Esposo, deixando no coração de todos uma viva recordação do seu amor e da sua santidade.

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

30 de agosto - Beato Padre Eustáquio Van Lieshout


“Padre Eustáquio foi para Belo Horizonte enjeitado, ninguém sabia onde colocar Padre Eustáquio. Ele foi para Belo Horizonte com a obrigação de não fazer milagre. Pois para Deus não tem isso. Ele fez… trocou nome de rua, trocou nome de bairro, trocou nome de igreja, trocou tudo… para ver o que é a pessoa marcada por Deus. Padre Eustáquio com o seu ‘Saúde e Paz’ chegou a todas as famílias, de JK até o mais simples e pobre dos cristãos.“ 
Cardeal Dom Serafim Fernandes de Araújo, Arcebispo Emérito de Belo Horizonte.

Nascido na Holanda em 1890 e ordenado sacerdote em 1919, o Beato Eustáquio desembarcou no Rio de Janeiro em 12 de maio de 1925. Seu destino: o povoado de Água Suja, no Triângulo Mineiro.

Situado às margens do Rio Bagagem, aquele local sofria dos males comuns às regiões de mineração muito afastadas, sendo marcado por enormes necessidades espirituais e materiais. O farol que iluminava a vida dura dos mineiros era o antigo santuário de Nossa Senhora da Abadia, onde se fixou o padre vindo da Europa.

Nos seus dez anos em Água Suja - cujo nome foi mudado para Romaria - ele iniciou a edificação do Santuário de Nossa Senhora da Abadia, que se tornou um grande centro de peregrinação.

Em Romaria, como nas cidades onde atuou depois, dedicou-se com extremo desvelo aos pobres e aos enfermos. Nas suas visitas às casas de seus paroquianos, servia até mesmo de médico e enfermeiro dos doentes.

Assim comportou-se o Padre Eustáquio durante seus 24 anos de sacerdócio. Com uma diferença: ele era o escravo de todos os necessitados, e não apenas de seus paroquianos.

Em Romaria, o Padre Eustáquio já fez algumas curas consideradas milagrosas. Mas foi em Poá (SP), para onde foi transferido, tomando posse como pároco em fevereiro de 1935, que esse dom começou a brilhar com maior intensidade, e sua fama de santidade começou a se espalhar irresistivelmente pelo Brasil inteiro.

Um dos maiores benefícios que o Padre Eustáquio fez à população daquela região foi vencer o indiferentismo religioso e resgatar numerosas almas que estavam se emaranhando nas teias da seita espírita.

Multidões cada vez maiores procuravam assiduamente o homem de Deus para pedir o alívio de seus sofrimentos espirituais e físicos. A afluência de povo era tão grande que chegaram a passar por Poá cerca de dez mil pessoas por dia.

A autoridade civil e a religiosa se inquietaram com isso. Por intervenção do Arcebispo de São Paulo - arquidiocese à qual pertencia então Poá - os superiores do Padre Eustáquio se viram obrigados a transferi-lo.

Nosso beato ficou chocado com a notícia. Não conseguia entender como poderia ser impedido de exercer um carisma que claramente Deus lhe havia concedido para o bem do povo. Mas, como pessoa virtuosa que era, obedeceu sem pestanejar.

Com ar de muito abatimento, deixou sua querida Poá no dia 13 de maio de 1941 sem nem sequer despedir- se das pessoas mais chegadas.

Teve de viver algum tempo oculto na cidade de São Paulo, numa situação humilhante, sob a vigilância de seus superiores, sendo até mesmo proibido de visitar seus amigos.

Desde a saída de Poá, a vida do Beato Eustáquio foi como a de um migrante. Onde quer que estivesse havia pessoas que o procuravam para lhe pedir ajuda, consolo e cura. Logo as multidões se lhe punham ao encalço, e isso causava desagrados e incompreensões. Quase invariavelmente, pouco depois era convidado a se retirar do local. É verdade que também recebeu mostras de carinho, como do Arcebispo de Campinas. Mas a par disso houve cenas constrangedoras, como quando foi obrigado a se retirar sem demora do Rio de Janeiro, ocasião em que nem lhe queriam dar tempo de rezar o breviário.

De volta a Minas Gerais, chamado pelo jovem superior da comunidade da Congregação, em Patrocínio, Padre Eustáquio pôde finalmente encontrar sossego. Havendo chegado em outubro de 1941, ele sentiu-se de fato aliviado, pois seus companheiros de hábito, além de não lhe colocarem obstáculos, ainda o ajudaram nos seus labores apostólicos. Ali ele recebeu a comunicação de que o Arcebispo de Belo Horizonte queria sua presença em sua arquidiocese.

Na capital de Minas, onde chegou em 3 de abril de 1942, Padre Eustáquio assumiu a paróquia dos Sagrados Corações, na qual permanecerá até 30 de agosto de 1943, dia de sua morte. Após um início com algumas restrições, que fizeram temer a volta das sanções já aplicadas em outros lugares, o Beato pôde exercer com toda a liberdade os carismas da cura e do conselho, cumprindo a vocação para a qual o Senhor o destinara.

Acima de tudo, pastor de almas

Esse sacerdote exemplar, que sempre procurava remediar os males corporais, nunca se esquecia de que sua principal missão era salvar almas.

Repercutiram sensacionalmente na imprensa os milagres atribuídos ao Padre Eustáquio e há documentos de várias curas para as quais a ciência não tem explicação. Mas ele operou "milagres" muito mais importantes, e numa quantidade que de fato "fazem lembrar os tempos da Igreja primitiva": a conversão de milhares de pecadores.


Passava seis horas por dia atendendo confissões. Não tinha dotes oratórios, mas possuía em alto grau o dom da palavra ardente que move ao arrependimento e à mudança de vida. Na paróquia de Poá, muitas vezes três coadjutores eram insuficientes para atender os penitentes que faziam fila diante dos confessionários após ouvir uma recomendação desse homem de Deus.

Durante um tríduo de pregações na maior igreja de Belo Horizonte, nos três dias verificou-se um fato inédito: terminado o sermão, centenas de homens de todas as classes e idades corriam ao confessionário, disputando o privilégio de serem os primeiros a se reconciliarem com Deus. Movimentação ainda maior ocorreu na páscoa dos funcionários públicos: mais de cinco mil pessoas obrigaram doze sacerdotes a socorrerem-no no atendimento de confissões.

Donde lhe vinha esse poder de arrastar os pecadores à conversão? Do esplendor de sua santidade...

O Beato Eustáquio sabia que a alma de todo apostolado é a vida interior. Por isso, mesmo quando passava a noite em claro, começava o dia às cinco da manhã, para não se privar da hora de meditação quotidiana. Rezava o Rosário. Passava horas em adoração diante de Jesus Eucarístico. Nunca se dispensava de fazer seu exame de consciência nem de rezar o breviário.

Em certa ocasião, após um dia estafante, era noite alta e ele tinha de partir de viagem imediatamente. Vendo seu enorme cansaço, disse-lhe um bispo:
- Pe. Eustáquio, eu o dispenso de rezar o breviário hoje.
- Não posso, Excelência. O dia inteiro trabalhei para os outros, agora preciso pensar um pouco em mim mesmo.

Para esse religioso exemplar, a oração não era uma obrigação enfadonha, mas sim o alimento restaurador das energias. Fortalecido por ela, pôde ele realizar o empolgante lema de sua Congregação dos Sagrados Corações: "Para mim o trabalho, para o próximo a utilidade, para os Sagrados Corações a honra e a glória".

No dia 20 de agosto de 1943, atendendo a um doente que sofria de tifo exantemático, o Pe. Eustáquio contraiu essa grave enfermidade, então incurável.

Em dez dias partiria para a eternidade. Prostrado no leito do hospital, caminhando para a morte - que aliás ele mesmo profetizara - permaneceu sempre sereno em meio a sofrimentos atrozes, de tal modo que seus últimos dias foram dos mais edificantes de sua vida.

Nos seus derradeiros momentos, renovou os votos religiosos, e só deu o último suspiro depois de ver entrar em seu quarto, chorando e cansado por uma longa e estafante viagem, seu superior provincial, com quem queria estar de qualquer modo antes de morrer. Era 30 de agosto de 1943.

E Deus o glorificou

Suas exéquias foram uma apoteose nunca antes vista na capital mineira. Todos os jornais e emissoras de rádio lhe dedicaram grande espaço, comentando seus dons e transcrevendo sua biografia. Pode-se dizer que a quase totalidade da população compareceu para prestar-lhe as últimas homenagens. Sua tumba tornou-se desde logo local de peregrinação. Em 1949, seus restos mortais foram transladados para o interior da igreja que começara a construir.

Infinitamente mais importante, porém, é a glória com que foi recebido no Céu, à qual a Santa Igreja acrescenta a glorificação dos altares, ao beatificá-lo é assim o apresenta como modelo para os fiéis do mundo inteiro, especialmente os párocos e os religiosos.

A cerimônia de beatificação foi presidida pelo Cardeal José Saraiva Martins, Presidente da Congregação para as Causas dos Santos, concelebrada por Dom Walmor Oliveira de Azevedo, Arcebispo de Belo Horizonte, Dom Luiz Mancilha Vilela, Arcebispo de Vitória, e numerosos outros bispos e milhares de fiéis.


                                                               

terça-feira, 1 de janeiro de 2019

01 de janeiro - Dia Mundial da Paz

“A paz esteja nesta casa!”

Jesus, ao enviar em missão os seus discípulos, disse-lhes: “Em qualquer casa em que entrardes, dizei primeiro: “A paz esteja nesta casa!” E, se lá houver um homem de paz, sobre ele repousará a vossa paz; se não, voltará para vós”.

Oferecer a paz está no coração da missão dos discípulos de Cristo. E esta oferta é feita a todos os homens e mulheres que, no meio dos dramas e violências da história humana, esperam na paz. A “casa”, de que fala Jesus, é cada família, cada comunidade, cada país, cada continente, na sua singularidade e história; antes de mais nada, é cada pessoa, sem distinção nem discriminação alguma. E é também a nossa “casa comum”: o planeta onde Deus nos colocou a morar e do qual somos chamados a cuidar com solicitude.

Eis, pois, os meus votos no início do novo ano: “A paz esteja nesta casa!”

O desafio da boa política

A paz parece-se com a esperança de que fala o poeta Carlos Péguy; é como uma flor frágil, que procura desabrochar por entre as pedras da violência. Como sabemos, a busca do poder a todo o custo leva a abusos e injustiças. A política é um meio fundamental para construir a cidadania e as obras do homem, mas, quando aqueles que a exercem não a vivem como serviço à coletividade humana, pode tornar-se instrumento de opressão, marginalização e até destruição.

“Se alguém quiser ser o primeiro – diz Jesus – há de ser o último de todos e o servo de todos”. 
Com efeito, a função e a responsabilidade política constituem um desafio permanente para todos aqueles que recebem o mandato de servir o seu país, proteger as pessoas que habitam nele e trabalhar para criar as condições dum futuro digno e justo.

Vale a pena recordar as “bem-aventuranças do político”, propostas pelo Cardeal vietnamita Francisco Xavier Nguyen Van Thuan:

Bem-aventurado o político que tem uma alta noção e uma profunda consciência do seu papel.
Bem-aventurado o político de cuja pessoa irradia a credibilidade.
Bem-aventurado o político que trabalha para o bem comum e não para os próprios interesses.
Bem-aventurado o político que permanece fielmente coerente.
Bem-aventurado o político que realiza a unidade.
Bem-aventurado o político que está comprometido na realização duma mudança radical.
Bem-aventurado o político que sabe escutar.
Bem-aventurado o político que não tem medo.

Com efeito, a paz é fruto dum grande projeto político, que se baseia na responsabilidade mútua e na interdependência dos seres humanos. Mas é também um desafio que requer ser abraçado dia após dia. A paz é uma conversão do coração e da alma, sendo fácil reconhecer três dimensões indissociáveis desta paz interior e comunitária:

– a paz consigo mesmo, rejeitando a intransigência, a ira e a impaciência e – como aconselhava São Francisco de Sales – cultivando “um pouco de doçura para consigo mesmo”, a fim de oferecer “um pouco de doçura aos outros”;

– a paz com o outro: o familiar, o amigo, o estrangeiro, o pobre, o atribulado…, tendo a ousadia do encontro, para ouvir a mensagem que traz consigo;

– a paz com a criação, descobrindo a grandeza do dom de Deus e a parte de responsabilidade que compete a cada um de nós, como habitante deste mundo, cidadão e ator do futuro.

A política da paz, que conhece bem as fragilidades humanas e delas se ocupa, pode sempre inspirar-se ao espírito do Magnificat que Maria, Mãe de Cristo Salvador e Rainha da Paz, canta em nome de todos os homens: “A misericórdia [do Todo-Poderoso] estende-se de geração em geração sobre aqueles que O temem. Manifestou o poder do seu braço e dispersou os soberbos. Derrubou os poderosos de seus tronos e exaltou os humildes (…), lembrado da sua misericórdia, como tinha prometido a nossos pais, a Abraão e à sua descendência, para sempre”.

Papa Francisco 

sábado, 8 de setembro de 2018

08 de setembro - Livro da origem de Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abraão. Abraão gerou Isaac; Isaac gerou Jacó... Mt 1,1-16

Quando proclamamos este trecho do Evangelho na liturgia, não é raro sentir um certo embaraço. Alguns consideram esta leitura um exercício sem significado, quase uma repetição enfadonha. Outros o leem velozmente, ficando incompreensível, outros ainda o abreviam, pulando alguns trechos.

Para mim, a recordação dos nossos antepassados tem um grande valor. Eu mesmo sei os nomes de quinze gerações de meus antepassados, desde 1698, quando minha família recebeu o santo Batismo.

Por meio da genealogia damo-nos conta de que pertencemos a uma história que é maior do que nós. E colhemos o sentido de nossa própria história com maior certeza da verdade.

Por isso, agradeço à Igreja, nossa Mãe, que pelo menos duas vezes por ano, no tempo do Advento e na festa da Natividade de Maria, faz ressoar em nossas assembleias, espalhadas por todo o mundo católico, os nomes de muitos personagens significativos que tiveram – segundo um misterioso desígnio divino – uma importante missão na história da salvação e na vida do Povo de Israel.

O desconcertante mistério da escolha, por parte de Deus, dos antepassados do Messias, ilumina o mistério da nossa vocação.

“Não fostes vós que me escolhestes, mas fui eu que vos escolhi” Jo 15,18. Não fomos escolhidos por causa de nossos méritos, mas unicamente por causa da misericórdia de Deus.
“Eu te amei com um amor eterno” Jr 31,3. Esta é a nossa segurança.
“Desde o seio materno o Senhor me chamou” Is 49,1. É esta a nossa vantagem: saber que fomos chamados e escolhidos por amor.

Cardeal François X. N. Van Thuan – Testemunhas da Esperança

Hoje celebramos:


sábado, 18 de maio de 2019

Christus vivit: Percursos de Juventude: A vontade de viver e experimentar – nºs 144 a 149


Nºs 144 a 149

A projeção para o futuro, que se sonha, não significa que os jovens estejam totalmente lançados para diante, pois simultaneamente há neles um forte desejo de viver o presente, aproveitar ao máximo as possibilidades que esta vida lhes oferece. Este mundo está repleto de beleza! Como se pode desprezar os dons de Deus?

Ao contrário do que muitos pensam, o Senhor não quer atenuar esta vontade de viver. Faz-nos bem lembrar o que ensinava um sábio do Antigo Testamento: “Meu filho, se tens com quê, trata-te bem. (…) Não te prives da felicidade presente” (Eclo 4, 11.14).
O verdadeiro Deus, Aquele que te ama, quer-te feliz. Por isso, na Bíblia, encontramos também este conselho dirigido aos jovens: Jovem, regozija-te na tua mocidade e alegra o teu coração na flor dos teus anos. (...) Lança fora do teu coração a tristeza” (Ecle 11, 9.10). Porque é ”Deus que nos dá tudo com abundância para nosso usufruto” (ITm 6, 17).

Como poderá dizer-se agradecido a Deus quem não é capaz de usufruir dos seus pequenos presentes de cada dia, quem não sabe parar diante das coisas simples e agradáveis que encontra a cada passo? Com efeito, “não há pior do que aquele que é avaro para si mesmo” (Eclo 14, 6). Não se trata de ser insaciáveis, sempre obcecados por prazeres sem fim; antes pelo contrário, pois isso impedir-te-á de viver o presente. Trata-se de saber abrir os olhos e parar a fim de viver plenamente e com gratidão cada um dos pequenos presentes da vida.

A Palavra de Deus convida-te claramente a viver o presente, e não só a preparar o amanhã: Não vos preocupeis com o dia de amanhã, pois o dia de amanhã já terá as suas preocupações. Basta a cada dia o seu problema. Isto, porém, não significa abandonar-se a uma libertinagem irresponsável que nos deixa vazios e sempre insatisfeitos, mas convida-nos a viver plenamente o presente, usando as nossas energias para fazer coisas boas, cultivando a fraternidade, seguindo Jesus e apreciando cada pequena alegria da vida como um presente do amor de Deus.

A propósito, quero lembrar que o cardeal Francisco Xavier Nguyên van Thuân, quando foi preso num campo de concentração, não quis que os seus dias consistissem apenas em aguardar, esperar um futuro. Escolheu viver o momento presente, cumulando-o de amor; e a maneira como o realizava era esta: Aproveito as oportunidades que me surgem cada dia para realizar ações ordinárias de maneira extraordinária.
Enquanto lutas para realizar os teus sonhos, vive plenamente o dia de hoje, numa entrega total e cheia de amor em cada momento. A verdade é que este dia da tua juventude pode ser o último, e por isso vale a pena vivê-lo com toda a garra e profundidade possíveis.

Isto é válido também para os momentos difíceis, que devem ser vividos profundamente para conseguir aprender a sua mensagem. Como ensinam os bispos suíços, Ele está lá no lugar onde pensávamos que nos tinha abandonado e que já não havia possibilidade alguma de salvação. É um paradoxo, mas o sofrimento, as trevas tornaram-se, para muitos cristãos, (...) lugares de encontro com Deus.
Além disso, o desejo de viver e fazer novas experiências tem a ver especialmente com muitos jovens em condições de deficiência física, psíquica e sensorial. Embora nem sempre possam fazer as mesmas experiências dos coetâneos, possuem recursos surpreendentes, inimagináveis que às vezes superam os recursos comuns. O Senhor Jesus cumula-os doutros dons, que a comunidade é chamada a valorizar, para que possam descobrir o seu projeto de amor para cada um deles.