segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

02 de janeiro - Beata Maria Ana Sureau-Blondin

Fundadora das Irmãs de Santa Ana, Maria Ana Blondin é o modelo de uma existência consagrada ao amor e imbuída do mistério pascal. Esta jovem camponesa do Canadá proporá ao seu Bispo a fundação de uma congregação religiosa para a educação das crianças pobres dos campos, com vista a pôr fim ao analfabetismo. Num grande espírito de abandono à Providência, de quem amará "o cuidado totalmente maternal", ela aceitará com humildade as decisões da Igreja e, até à sua morte, levará a cabo trabalhos modestos para o bem das suas coirmãs. 
As provações jamais alterarão o seu grande amor a Cristo e à Igreja, nem o seu cuidado pela formação de verdadeiras educadoras da juventude. Forjada por uma vida de humildade e de escondimento, Maria Ana Blondin encontrava a força interior na contemplação da Cruz, mostrando-nos que a vida de intimidade com Cristo é o modo mais seguro de dar misteriosamente frutos e de cumprir a missão desejada por Deus. 
Possa o seu exemplo despertar nas religiosas do seu Instituto e em numerosos jovens o gosto de servir a Deus e aos homens, em particular à juventude, a quem é importante oferecer os instrumentos de um autêntico desenvolvimento espiritual, moral e intelectual!
Papa João Paulo II – Homilia de Beatificação – 29 de abril de 2001

Esta beata do Canadá nasceu em Terrebonne, na província de Quebec, em 18 de abril de 1809; seu pai era João Batista Sureau-Blondin, agricultor e a sua mãe, Maria Rosa Limoges, dona-de-casa. Terceira de 12 filhos desta família muito católica, foi batizada com o nome de Maria Ester Sureau-Blondin. Herdou da sua mãe uma piedade centrada na Providência e na Eucaristia, e do seu pai uma fé sólida e uma grande paciência no sofrimento. Ela e a sua família foram vítimas do analfabetismo imperante nos ambientes francófonos do Canadá do século XIX. 

Maria Ester passou a infância e a adolescência em casa, recebendo educação e formação de seus pais devido à falta de escolas católicas de língua francesa em um Estado que há 50 anos passara para o domínio britânico e protestante.

Aos 20 anos, em 1829, começou a prestar serviços às Irmãs da Congregação de Notre- Dame, que haviam se estabelecido recentemente em Terrebonne, recebendo como salário o aprender a ler e a escrever. Em 1832, foi admitida no noviciado da Congregação, mas não pronunciou os votos, porque foi rejeitada pela saúde precária.

Ela passou um período de tratamento e descanso em casa e depois se tornou colaboradora da professora da escola primária católica na vila de Vaudreuil, tornando-se diretora da mesma escola em 1838.

Comovida com a ignorância das crianças rurais e incentivada pelo vigário Paul-Loup Archambault, decidiu, lançar as bases para uma nova comunidade inteiramente dedicada à educação.  O projeto era inovador para a sua época, parecendo até mesmo "temerário e subversivo" em relação à ordem estabelecida. Contudo, dado que o Estado favorecia este tipo de escolas, o Bispo deu a sua autorização. Em setembro de 1850, com quatro companheiras, ela pronunciou os seus votos adotando o nome de Irmã Maria Ana, dando início à Congregação das Irmãs de Santa Ana.

No início a jovem instituição passou por muitas dificuldades devido a grande pobreza. Mas o recrutamento para esta nova comunidade foi tão bem sucedido, que em 1853 tiveram que transferir o jovem Instituto, contando então com 34 membros, de Vaudreuil para Saint-Jacques de l'Achigan (Saint-Jacques). Em 1864, a Casa Mãe foi finalmente fixada em Lachine.
O que caracteriza a carreira de Madre Maria Ana é que dos 40 anos de vida religiosa ela somente governou a sua comunidade por quatro anos.

Uma espécie de drama moral começou para ela em sua chegada a Saint-Jacques, com a nomeação do Abade Luís Adolfo Maréchal como capelão do Instituto. Segundo ele, as Irmãs de Santa Ana, Congregação que tinha apenas cinco anos, tinha o duro desafio de substituir professoras respeitáveis, as religiosas da Sociedade do Sagrado Coração de Jesus.

A equipe de Madre Maria Ana foi agitada por um homem naturalmente dominador que excedeu seus poderes, segundo a superiora, interferindo nas regras da comunidade. O entendimento entre a fundadora das Irmãs de Santa Ana e o capelão tendo se tornado impossível, foi preciso sacrificar um ou outro para evitar profundas divisões no seio da comunidade.

Em agosto de 1854, Mons. Bourget decidiu destituir Madre Maria Ana e nomear um novo conselho. Nomeada superiora do Convento de Sainte-Geneviève (Pierrefonds) que ela fundara em 1851, para lá ela se encaminhou no início de novembro.
Apesar da distância, muitas religiosas formadas pela Irmã Maria Ana permaneceram em contato com ela, o que não foi tolerado pelo capelão, que obteve a permissão do bispo para tirar-lhe também aquele cargo.

A partir de então Madre Maria Ana ficaria longe do governo da comunidade. Em 1864, ela acompanhou as Irmãs que se instalaram na nova Casa Mãe de Lachine, mas seus cargos de conselheira local, de assistente local e conselheira geral são apenas títulos: de fato, a fundadora das Irmãs de Santa Ana vai limitar-se às tarefas mais humildes. Para ela, fundadora e ótima professora, foram confiadas tarefas como: portaria, responsável pela lavanderia das Irmãs, sacristã, ofícios que ela exerceu ao longo de 36 anos em casas fundadas em várias cidades.
Certa vez, uma noviça admirou-se ao ver a fundadora desempenhar tarefas tão humildes e perguntou qual era a razão disso:  "Quanto mais se aprofundar a raiz da árvore, tanto mais possibilidades ela tem de crescer e dar fruto". Despojada da sua correspondência pessoal com o seu bispo, cedeu a tudo sem resistência, confiando sempre em Deus:  "Na sua Sabedoria, Ele saberá discernir o verdadeiro do falso, recompensando cada um segundo as suas obras". Além disso, soube dar aos acontecimentos da sua vida um grandioso sentido evangélico, buscando em tudo unicamente a glória de Deus.

As autoridades que lhe sucederam proibiram que ela fosse chamada madre, e ela aceitou o abandono pela vida da sua Congregação, sem se apegar ao seu título de fundadora, mas não abdicou da sua vocação de "mãe espiritual". Viveu a perseguição, perdoando a todos, pois estava convencida de que "há mais felicidade no perdão do que na vingança". Este perdão evangélico era para ela a garantia da "paz na alma", o "bem mais precioso", do qual deu o último testemunho no seu leito de morte, perdoando ao Pe. Maréchal.

Outros se encarregariam de exaltar uma fundadora desconhecida. Mas a "recuperação" seria lenta. Falecendo octogenária, em 2 de janeiro de 1890, Madre Maria Ana foi até o fim uma testemunha discreta e calma do desenvolvimento do seu trabalho.

O último período de sua vida é o testemunho de uma fé viva e de uma grande força de vontade no meio das incompreensões, exemplo de submissão amorosa à vontade de Deus, de respeito à autoridade, caridade e serviço a todos, humildade e abnegação.

Ela aceitou sua demissão oferecendo sua vida para o bem da Congregação, o que evidentemente foi aceito por Deus: em 1884, a Congregação recebeu a aprovação de Roma, e em 1890 havia 428 religiosas envolvidas no ensino e ocupadas no cuidado dos doentes em 42 casas de Quebec, Colômbia Canadense, Estados Unidos e Alasca.

No outono de 1889, Madre Maria Ana ficou doente com uma bronquite grave; na noite de Natal ela quis assistir à Missa na capela da Casa Mãe, o que lhe custou um agravamento da doença, que a levou à morte em 2 de janeiro de 1890, em Lachine.
Em 7 de janeiro de 1977 foi introduzida na causa de sua beatificação; em 14 de março de 1991 recebeu o título de Venerável; em 29 de abril de 2001 foi beatificada pelo Papa João Paulo II na Praça de S. Pedro, em Roma.


02 de janeiro - São Basílio Magno: "Aquele que nada tem, é livre."

O Imperador Valente emitiu decretos de exílio dos bispos católicos que se recusassem a aceitar a heresia ariana. Mas em Cesaréia, dada a grande personalidade de São Basílio, quis preparar o terreno. Mandou então que alguns bispos arianos fossem conversar com Basílio, para ver se conseguiam levá-lo a aderir à heresia. Este não só não quis ouvi-los, mas os excomungou.

O prefeito Modesto chamou então o bispo recalcitrante. Com boas palavras, tentou induzi-lo a aceitar a heresia ariana. Como Basílio nem lhe desse ouvidos, ameaçou-o gradativamente com confiscação de bens, exílio, tormentos e morte.

São Gregório, que estava presente, descreve a cena:
— Ameaçai-me de qualquer outra coisa, porque nada disso me impressiona,” respondeu-lhe Basílio.
— Que dizes!?
— Aquele que nada tem, é livre. Não tenho senão alguns livros e os trapos que visto; imagino que não sois zeloso de m’os tirar. Quanto ao exílio, não vos será fácil condenar-me: é o Céu, e não o país em que habito que eu considero minha pátria. Eu temo pouco os tormentos. Meu corpo está num tal estado de magreza e de fraqueza, que não poderá sofrer por muito tempo. O primeiro golpe terminará minha vida e minhas penas. Temo ainda menos a morte, que me parece um favor. Ela me reunirá mais cedo ao meu Criador, por Quem somente vivo.

A grandeza do arcebispo surpreendeu o prefeito que reagiu: 
— Até o presente momento, ninguém havia ousado falar comigo desta forma. 
E Basílio, com muita modéstia lhe respondeu se: 
—Talvez ainda não tenhas tido a oportunidade de falar com um bispo.

Neste tempo, o mesmo imperador chegou à Cesaréia e dirigiu-se à igreja. Era a festa da Epifania do Senhor, e São Basílio, piedosamente oficiava para uma grande multidão que rezava com grande devoção. Isto surpreendeu o imperador que tomou medidas para que Basílio aceitasse algum tipo de conciliação com os arianos. Entretanto, encontrando nele uma determinada resistência neste sentido, condenou-o ao desterro

Mas a Providência velava. Essa noite mesmo o príncipe imperial Valentiniano Gálata, de seis anos, foi acometido por uma febre tão violenta, que os médicos se confessaram impotentes para qualquer coisa. A imperatriz fez notar ao marido que isso era uma justa punição por ter exilado o Bispo, e insistiu em que o chamasse para curar o filho. Basílio ainda não tinha partido. Mal chegou ao palácio, o menino começou a melhorar. Afirmou ao imperador que o menino sararia, contanto que ele prometesse educá-lo na verdadeira religião, a católica. A condição tendo sido aceita, o Bispo rezou junto ao leito do menino, que ficou instantaneamente curado.

Entretanto, pressionado pelos bispos arianos, Valente não manteve sua palavra. Pelo contrário, fez batizar logo o menino por um dos bispos hereges. O menino teve uma imediata recaída e morreu pouco depois.

O terrível golpe não converteu o imperador, que condenou novamente Basílio ao exílio. Quando lhe trouxeram a ordem para assinar, a haste de bambu que lhe servia de caneta quebrou-se em sua mão. Outra haste foi trazida, e teve o mesmo fim. Uma terceira também quebrou-se. Quando Valente fez vir uma quarta, seu braço foi tomado de tremor e de uma agitação extraordinária. Apavorado, ele rasgou a ordem e deixou o arcebispo em paz.

domingo, 1 de janeiro de 2017

01 de janeiro - Santa Mãe de Deus, Maria

Olhemos para Maria, contemplemos a Santa Mãe de Deus. Gostaria de vos propor que a saudássemos juntos, como fez o povo corajoso de Éfeso, que gritava à frente dos seus pastores quando entravam na Igreja: «Santa Mãe de Deus»! Que bela saudação para a nossa Mãe… Conta-se, mas não sei se a história é verdadeira, que alguns de entre aquelas pessoas tinham os bastões na mão, talvez para dar a entender aos bispos o que lhes aconteceria se não tivessem tido a coragem de proclamar Maria «Mãe de Deus». Sem bastão, convido a todos vós que vos levanteis e, de pé, Lhe dirijais por três vezes esta saudação da Igreja primitiva: «Santa Mãe de Deus»!
Papa Francisco 01 de janeiro de 2015

“Mãe de Deus! Este é o título principal e essencial de Nossa Senhora. Trata-se duma qualidade, duma função que a fé do povo cristão, na sua terna e genuína devoção à Mãe celeste, desde sempre Lhe reconheceu.

A Solenidade de Santa Maria Mãe de Deus é a primeira Festa Mariana que apareceu na Igreja Ocidental, começou a ser celebrada em Roma no século VI, provavelmente junto com a dedicação no dia 1º de janeiro do templo Santa Maria Antiga no Foro Romano, uma das as primeiras igrejas marianas de Roma.

A antiguidade da celebração mariana pode ser constatada nas pinturas com o nome de Maria, Mãe de Deus (Theotókos) que foram encontradas nas Catacumbas ou antiquíssimos subterrâneos que estão cavados debaixo da cidade de Roma, onde se reuniam os primeiros cristãos para celebrar a Missa nos tempos das perseguições.

O Concílio de Éfeso:
No ano de 431, o herege Nestor atreveu-se a dizer que Maria não era Mãe de Deus, afirmando: Então Deus tem uma mãe? Pois então não condenemos a mitologia grega, que atribui uma mãe aos deuses. Frente a isso, 200 bispos do mundo se reuniram em Éfeso, a cidade onde a Santíssima Virgem passou seus últimos anos, e iluminados pelo Espírito Santo declararam:

“A Virgem Maria é Mãe de Deus porque seu Filho, Cristo, é Deus”.
E acompanhados por todo o gentio da cidade que os rodeava portando tochas acesas, fizeram uma grande procissão cantando: "Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós pecadores agora e na hora de nossa morte. Amém. Amém".

Também São Cirilo de Alexandria ressaltou: “Dir-se-á: a Virgem é mãe da divindade? A isso respondemos: o Verbo vivente, subsistente, foi gerado pela
mesma substância de Deus Pai, existe desde toda a eternidade... Mas no tempo ele se fez carne, por isso pode-se dizer que nasceu de mulher”.

Mãe do Menino Deus “Eis aqui a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra”

É a partir desse fiat, faça-se que Santa Maria respondeu firme e amorosamente ao Plano de Deus; graças a sua entrega generosa Deus mesmo pôde se encarnar para nos trazer a Reconciliação, que nos livra das feridas do pecado.

A donzela de Nazaré, a cheia de graça, ao assumir em seu ventre o Menino Jesus, a Segunda Pessoa da Trindade, torna-se a Mãe de Deus, dando tudo de si para seu Filho; vemos pois que tudo nela aponta a seu Filho Jesus.

É por isso, que Maria é modelo para todo cristão que busca dia a dia alcançar sua santificação. Em nossa Mãe Santa Maria encontramos a guia segura que nos introduz na vida do Senhor Jesus, ajudando-nos a conformar-nos com Ele e poder dizer como o Apóstolo “vivo eu mas não eu, é Cristo que vive em mim”.

A comemoração de Maria, neste dia, soma-se ao Dia Universal da Paz. Ninguém mais poderia encarnar os ideais de paz, amor e solidariedade do que ela, que foi o terreno onde Deus fecundou seu amor pelos filhos e de cujo ventre nasceu aquele que personificou a união ente os homens e o amor ao próximo, o Cristo. Celebrar Maria é celebrar O nosso Salvador. Dia da Paz, dia da Mãe Santíssima. Nos tempos sofridos e sangrentos em que vivemos, um dia de reflexão e esperança.

No início dum novo ano, a Igreja faz-nos contemplar, como ícone de paz, a maternidade divina de Maria. A antiga promessa realiza-se na sua pessoa, que acreditou nas palavras do Anjo, concebeu o Filho, tornou-Se Mãe do Senhor. Através d’Ela, por meio do seu «sim», chegou a plenitude do tempo. O Evangelho, que escutamos, diz que a Virgem «conservava todas estas coisas, ponderando-as no seu coração» (Lc  2, 19). Aparece-nos como vaso sempre cheio da memória de Jesus, Sede da Sabedoria, onde recorrer para termos a interpretação coerente do seu ensinamento. Hoje dá-nos a possibilidade de individuar o sentido dos acontecimentos que nos tocam pessoalmente a nós, às nossas famílias, aos nossos países e ao mundo inteiro. Aonde não pode chegar a razão dos filósofos, nem as negociações da política, consegue fazê-lo a força da fé que a graça do Evangelho de Cristo nos traz e que pode abrir sempre novos caminhos à razão e às negociações.
Feliz sois Vós, ó Maria, por terdes dado ao mundo o Filho de Deus; mas mais feliz ainda sois porque acreditastes n’Ele. Cheia de fé, concebestes Jesus, primeiro no coração e depois no seio, para Vos tornardes Mãe de todos os crentes (Santo Agostinho).
Mãe, lançai sobre nós a vossa bênção neste dia que Vos é consagrado; mostrai-nos o rosto do vosso Filho Jesus, que dá ao mundo inteiro misericórdia e paz. Amem.
Papa Francisco – 01 de janeiro de 2016


01 de janeiro - Dia Mundial da Paz

A não violência: estilo de uma política para a paz


No início deste novo ano, formulo sinceros votos de paz aos povos e nações do mundo inteiro. Almejo paz a todo o homem, mulher, menino e menina, e rezo para que a imagem e semelhança de Deus em cada pessoa nos permitam reconhecer-nos mutuamente como dons sagrados com uma dignidade imensa. Sobretudo nas situações de conflito, respeitemos esta «dignidade mais profunda» e façamos da não violência ativa o nosso estilo de vida.

Nesta ocasião, desejo deter-me na não violência como estilo duma política de paz, e peço a Deus que nos ajude, a todos nós, a inspirar na não violência as profundezas dos nossos sentimentos e valores pessoais. Sejam a caridade e a não violência a guiar o modo como nos tratamos uns aos outros nas relações interpessoais, sociais e internacionais. Quando sabem resistir à tentação da vingança, as vítimas da violência podem ser os protagonistas mais credíveis de processos não violentos de construção da paz. Desde o nível local e diário até ao nível da ordem mundial, possa a não violência tornar-se o estilo característico das nossas decisões, dos nossos relacionamentos, das nossas ações, da política em todas as suas formas.

Um mundo dilacerado

Enquanto o século passado foi arrasado por duas guerras mundiais devastadoras, conheceu a ameaça da guerra nuclear e um grande número de outros conflitos, hoje, infelizmente, encontramo-nos a braços com uma terrível guerra mundial aos pedaços. Não é fácil saber se o mundo de hoje seja mais ou menos violento que o de ontem, nem se os meios modernos de comunicação e a mobilidade que caracteriza a nossa época nos tornem mais conscientes da violência ou mais rendidos a ela.
Seja como for, esta violência que se exerce «aos pedaços», provoca enormes sofrimentos de que estamos bem cientes: guerras em diferentes países e continentes; terrorismo, criminalidade e ataques armados imprevisíveis; os abusos sofridos pelos migrantes e as vítimas de tráfico humano; a devastação ambiental. E para quê? Porventura a violência permite alcançar objetivos de valor duradouro? Tudo aquilo que obtém não é, antes, desencadear represálias e espirais de conflitos letais que beneficiam apenas a poucos «senhores da guerra»?
A violência não é o remédio para o nosso mundo dilacerado. Responder à violência com a violência leva, na melhor das hipóteses, a migrações forçadas e a atrozes sofrimentos, porque grandes quantidades de recursos são destinadas a fins militares e subtraídas às exigências do dia-a-dia dos jovens, das famílias em dificuldade, dos idosos, dos doentes, da grande maioria dos habitantes da terra. No pior dos casos, pode levar à morte física e espiritual de muitos, se não mesmo de todos.

A Boa Nova

O próprio Jesus viveu em tempos de violência. Ensinou que o verdadeiro campo de batalha, onde se defrontam a violência e a paz, é o coração humano: «Porque é do interior do coração dos homens que saem os maus pensamentos» (Mc 7, 21). Mas, perante esta realidade, a resposta que oferece a mensagem de Cristo é radicalmente positiva: Ele pregou incansavelmente o amor incondicional de Deus, que acolhe e perdoa, e ensinou os seus discípulos a amar os inimigos (Mt 5, 44) e a oferecer a outra face (Mt 5, 39). Quando impediu, aqueles que acusavam a adúltera, de a lapidar (Jo 8, 1-11) e na noite antes de morrer, quando disse a Pedro para repor a espada na bainha (Mt 26, 52), Jesus traçou o caminho da não violência que Ele percorreu até ao fim, até à cruz, tendo assim estabelecido a paz e destruído a hostilidade (Ef 2, 14-16). Por isso, quem acolhe a Boa Nova de Jesus, sabe reconhecer a violência que carrega dentro de si e deixa-se curar pela misericórdia de Deus, tornando-se assim, por sua vez, instrumento de reconciliação, como exortava São Francisco de Assis: «A paz que anunciais com os lábios, conservai-a ainda mais abundante nos vossos corações».
Hoje, ser verdadeiro discípulo de Jesus significa aderir também à sua proposta de não violência. O amor ao inimigo constitui o núcleo da “revolução cristã”. A página evangélica – amai os vossos inimigos (Lc 6, 27) – é, justamente, considerada «a magna carta da não violência cristã»: esta não consiste «em render-se ao mal (...), mas em responder ao mal com o bem (Rm 12, 17-21), quebrando dessa forma a corrente da injustiça».

Mais poderosa que a violência

Por vezes, entende-se a não violência como rendição, negligência e passividade, mas, na realidade, não é isso. Quando a Madre Teresa recebeu o Premio Nobel da Paz em 1979, declarou claramente qual era a sua ideia de não violência ativa: «Na nossa família, não temos necessidade de bombas e de armas, não precisamos de destruir para edificar a paz, mas apenas de estar juntos, de nos amarmos uns aos outros (...). E poderemos superar todo o mal que há no mundo». Com efeito, a força das armas é enganadora. «Enquanto os traficantes de armas fazem o seu trabalho, há pobres pacificadores que, só para ajudar uma pessoa, outra e outra, dão a vida»; para estes obreiros da paz, a Madre Teresa é «um símbolo, um ícone dos nossos tempos».  
Este compromisso a favor das vítimas da injustiça e da violência não é um patrimônio exclusivo da Igreja Católica, mas pertence a muitas tradições religiosas, para quem «a compaixão e a não violência são essenciais e indicam o caminho da vida». Reitero-o aqui sem hesitação: «nenhuma religião é terrorista».  A violência é uma profanação do nome de Deus. Nunca nos cansemos de repetir: «jamais o nome de Deus pode justificar a violência. Só a paz é santa. Só a paz é santa, não a guerra».

A raiz doméstica duma política não violenta

Se a origem donde brota a violência é o coração humano, então é fundamental começar por percorrer a senda da não violência dentro da família. É uma componente daquela alegria do amor que apresentei na Exortação Apostólica Amoris laetitia, em março passado, concluindo dois anos de reflexão por parte da Igreja sobre o matrimonio e a família. Esta constitui o cadinho indispensável no qual cônjuges, pais e filhos, irmãos e irmãs aprendem a comunicar e a cuidar uns dos outros desinteressadamente e onde os atritos, ou mesmo os conflitos, devem ser superados, não pela força, mas com o diálogo, o respeito, a busca do bem do outro, a misericórdia e o perdão. A partir da família, a alegria do amor propaga-se pelo mundo, irradiando para toda a sociedade. Aliás, uma ética de fraternidade e coexistência pacífica entre as pessoas e entre os povos não se pode basear na lógica do medo, da violência e do fechamento, mas na responsabilidade, no respeito e no diálogo sincero. Neste sentido, lanço um apelo a favor do desarmamento, bem como da proibição e abolição das armas nucleares: a dissuasão nuclear e a ameaça duma segura destruição recíproca não podem fundamentar este tipo de ética. Com igual urgência, suplico que cessem a violência doméstica e os abusos sobre mulheres e crianças.

O meu convite

A construção da paz por meio da não violência ativa é um elemento necessário e coerente com os esforços contínuos da Igreja para limitar o uso da força através das normas morais, mediante a sua participação nos trabalhos das instituições internacionais e graças à competente contribuição de muitos cristãos para a elaboração da legislação a todos os níveis. O próprio Jesus nos oferece um «manual» desta estratégia de construção da paz no chamado Sermão da Montanha. As oito Bem-aventuranças (Mt 5, 3-10) traçam o perfil da pessoa que podemos definir feliz, boa e autêntica. Felizes os mansos – diz Jesus –, os misericordiosos, os pacificadores, os puros de coração, os que têm fome e sede de justiça.
Este é um programa e um desafio também para os líderes de todo o mundo: aplicar as Bem-aventuranças na forma como exercem as suas responsabilidades. É um desafio a construir a sociedade, a comunidade ou a empresa de que são responsáveis com o estilo dos obreiros da paz; a dar provas de misericórdia, recusando-se a descartar as pessoas, danificar o meio ambiente e querer vencer a todo o custo. Isto requer a disponibilidade para «suportar o conflito, resolvê-lo e transformá-lo no elo de ligação de um novo processo».  Agir desta forma significa escolher a solidariedade como estilo para fazer a história e construir a amizade social. A não violência ativa é uma forma de mostrar que a unidade é, verdadeiramente, mais forte e fecunda do que o conflito. No mundo, tudo está intimamente ligado. Claro, é possível que as diferenças gerem atritos: enfrentemo-los de forma construtiva e não violenta, de modo que «as tensões e os opostos [possam] alcançar uma unidade multifacetada que gera nova vida», conservando «as preciosas potencialidades das polaridades em contraste».

Em conclusão

«Todos desejamos a paz; muitas pessoas a constroem todos os dias com pequenos gestos; muitos sofrem e suportam pacientemente a dificuldade de tantas tentativas para a construir». No ano de 2017, comprometamo-nos, através da oração e da ação, a tornar-nos pessoas que baniram dos seus corações, palavras e gestos a violência, e a construir comunidades não violentas, que cuidem da casa comum. «Nada é impossível, se nos dirigimos a Deus na oração. Todos podem ser artesãos de paz».


Trecho da Mensagem do Papa Francisco para o Dia Mundial da Paz -  01 de janeiro de 2017

sábado, 31 de dezembro de 2016

São Silvestre - Papa

São Silvestre encerra o ano civil. Ele encerra também, na história da Igreja uma época importante e inicia uma nova era.

Durante três séculos a Igreja de Deus esteve exposta às mais cruéis perseguições. O império romano empregava todo o seu poder para aniquilar o reino de Deus; o sangue corria em torrentes.
A Igreja permaneceu crescendo, a apesar de todos os planos, afrontando tudo.

Os seus membros morriam aqui e ali, mas a Igreja continuava a viver, e sempre novas pessoas entravam, para preencher as lacunas.

Por fim o império romano se curvou diante de Cristo e colocou a Cruz sobre o seu diadema e o sinal de Cristo sobre a água de suas legiões.

Cristo tinha vencido mais uma batalha, e o Papa Silvestre I viu como tudo mudava. Viu o suplício da cruz ser abolido. Viu cristãos confessarem livre e francamente a sua fé e erigirem casas de Deus.

Segundo o testemunho de historiadores, Silvestre nasceu em Roma, filho de pais ótimos cristãos, que bem cedo o confiaram aos cuidados do sacerdote Cirino, cujo preparo intelectual e exemplo de vida santa fizeram com que o discípulo adquirisse uma formação extraordinariamente sólida cristã.

Estava ainda em preparação última, isto é, a décima e de todas as mais bárbaras das perseguições dioclesianas, quando Silvestre, das mãos do Papa Marcelino, recebeu as ordens sacerdotais. Teve, pois, ocasião de presenciar os horrores desta perseguição sangrenta contra o Reino de Cristo. Pode ele ser e foi testemunha ocular do heroísmo das pobres vítimas do furor desmedido do tirano coroado.

Em 314, por voto unânime do povo e do clero foi proposto para ocupar a cadeira de São Pedro, como sucessor do Papa Melquíades. 

Com a vitória do cristianismo e a conversão do imperador Constantino viu-se o Papa diante da grande tarefa de, por meio das sábias leis, introduzir a religião cristã na vida dos povos, dando-lhe formação concreta e definitiva. A paz, infelizmente não foi de longa duração.

Duas terríveis heresias se levantaram contra a Igreja, arrastando-a para uma luta gigantesca de quase um século de duração. Foi a dos Donatistas, que tomou grande incremento na África.

A Igreja, ensinavam eles, deve compor-se só de justos; no momento em que seu seio tolera pecadores, deixa de ser a Igreja de Cristo.

O batismo administrado por um sacerdote que se encontra em estado de pecado, é inválido. Um bispo, se estiver com um pecado na alma, não pode crismar nem ordenar sacerdotes. Caso administre estes sacramentos, são eles inválidos. 

Pior e mais perigosa foi a outra heresia, propalada pelo sacerdote Ario, da Igreja de Antioquia. Esta heresia afirmava que a Jesus Cristo, Filho de Deus feito homem, faltavam as atribuições divinas; isto é, não era consubstancial ao Pai, portanto não era Deus, mas mera criatura, de essência diversa da do Pai e de natureza mutável. 
Tanto contra a primeira como contra a segunda o Papa Silvestre tomou enérgica atitude.

A dos Donatistas foi condenada no Concílio de Arles. O arianismo teve sua condenação no célebre Concílio de Nicéia - 325, ao qual compareceram 317 bispos.

O Papa Silvestre, já muito idoso pessoalmente não podendo comparecer à grande Assembléia, fez-se nela representar por dois sacerdotes de sua inteira confiança, que em seu lugar presidiram as sessões.

Estas terminaram com a solene proclamação dogmática da fórmula: " O Filho é consubstancial ao Pai; é Deus de Deus; Deus verdadeiro de Deus Verdadeiro; gerado, não feito, da mesma substância com o Pai". 
As resoluções do Concílio o Papa Silvestre as assinou. Na presença de 272 bispos foram as mesmas em Roma solenemente confirmadas.

Sobre o túmulo de São Pedro, o Papa, auxiliado pelo imperador, construiu a magnífica basílica vaticana, com oitenta colunas de mármore, templo que durante 1100 anos via chegar milhares e milhares de peregrinos provenientes de todas as partes do mundo, ansiosos de prestar homenagens ao "Rochedo", sobre o qual Cristo tinha edificado a sua Igreja - até que deu lugar à atual grandiosa Basílica de São Pedro.


O longo pontificado de São Silvestre (de 314 a 335) correu paralelo ao governo do imperador Constantino, numa época muito importante para a Igreja recém saída da clandestinidade e das perseguições. Foi nesse período que se formou uma organização eclesiástica que duraria por vários séculos. Nesta época, teve lugar de destaque o imperador Constantino.

Durante o seu pontificado a autoridade da Igreja foi estabelecida e se construíram alguns dos primeiros monumentos cristãos, como a Igreja do Santo Sepulcro em Jerusalém, e as primitivas basílicas de Roma (São João de Latrão e São Pedro), bem como das igrejas dos Santos Apóstolos e de Santa Sofia em Constantinopla.
dias depois.
São Silvestre morreu em 335, depois de ter permanecido no trono de Pedro durante vinte e um anos, e produzido tantos e bons frutos para o cristianismo. No ano seguinte ao da sua morte, começou a ser dedicada a são Silvestre uma festa no dia 31 de dezembro.