domingo, 4 de setembro de 2016

Beato José Toniolo

José Toniolo nasceu em 1845, em Treviso, numa Itália ainda desunida e em Revolução Industrial. Com 22 anos licencia-se em Direito pela Universidade de Pádua. Depois de iniciar a sua carreira docente nesta Universidade passa pelas Universidades de Veneza, Modena e Pisa onde ensina Economia Política, Estatística e Direito Administrativo.

O ano de 1878 é duplamente significativo na vida de Toniolo: em Fevereiro, o cardeal Vincenzo Pecci é eleito Papa, ficando conhecido por Leão XIII; em Setembro, o jovem professor casa com Maria Schiratti, com quem irá ter 7 filhos.

Desde cedo Toniolo percebe que a sua santificação passa pelo trabalho e pela família, ou seja, como dirá o Concílio Vaticano II um século depois, através das “condições, tarefas e circunstâncias da própria vida” (vd. Lumen Gentium, 41).

Como professor de Economia defende o primado da Ética sobre a Economia, dirigindo-se diretamente aos problemas mais prementes da sua época: a condenação do trabalho infantil, a limitação das horas de trabalho, o estabelecimento dos dias de descanso, o pagamento do «salário justo». Não é pois de estranhar que o seu pensamento tenha influenciado o Papa Leão XIII na redação da encíclica Rerum Novarum (1891). Este «documento imortal», como lhe chamou Pio XI 40 anos mais tarde, fundou o que hoje é conhecido por Doutrina Social da Igreja.

José Toniolo esteve envolvido na reorganização da Ação Católica Italiana e na idealização da Universidade Católica do Sagrado Coração.
A 7 de Outubro de 1918, Toniolo morre em Pisa com fama de santidade, sendo beatificado em 29 de abril de 2012.
Toniolo recorda-nos que o amor e a fidelidade à história e à sociedade, numa palavra, ao homem, são mais verdadeiros e eficazes quanto mais nascerem do desejo de Deus, do qual assumem regra e substância, para não fracassar e se precipitar no seu contrário. Como o século XX, depois da morte de Toniolo, eloquentemente demonstrou.
“A mensagem do beato José Toniolo é de grande atualidade, especialmente neste tempo: indica a via do primado da pessoa humana e da solidariedade.” Papa Bento XVI,  29 de abril de 2012
“O Beato José Toniolo, um leigo católico que apesar das dificuldades soube percorrer caminhos profícuos "para trabalhar na busca e na construção do bem comum", seu exemplo "constitui um estímulo sempre válido para os católicos leigos de hoje para que procurem vias eficazes para a mesma finalidade". Papa Francisco 14 de setembro de 2013
O Postulador da causa de sua beatificação, Padre Domenico Sorrentino, o define: “um homem apaixonado por Cristo e pela Igreja”, “um leigo comprometido por uma economia ética na época, a sua, do mais duro e injusto capitalismo; um defensor convicto da presença dos católicos na política numa época em que o ‘non expedit’ (não é permitido) proibia sua participação: um convite premente a não ficar só num compromisso caritativo assistencial, mas a ir à raiz dos problemas com soluções também político-econômicas”
Hoje celebramos também Santa Rosália

sábado, 3 de setembro de 2016

Papa São Gregório Magno


«Não se pode servir a dois senhores»

Querer pôr a esperança e a confiança em bens passageiros é querer fazer fundações em água corrente. Tudo passa; Deus permanece. Agarrarmo-nos ao que é transitório é desligarmo-nos do que é permanente. Quem, portanto, levado no turbilhão agitado de um rápido, consegue manter-se firme em seu lugar, nessa torrente fragorosa? Se quisermos recusar-nos a ser levados pela corrente, temos de nos afastar de tudo o que corre; senão o objeto do nosso amor constranger-nos-á a chegar ao que precisamente queremos evitar. Aquele que se agarra aos bens transitórios será certamente arrastado até onde vão ter, à deriva, essas coisas a que se apega.
A primeira coisa a fazer é pois abstermo-nos de amar os bens materiais;
A segunda, não pormos total confiança naqueles bens que nos são confiados para ser usados e não para ser desfrutados.
A alma que se prende a bens perecíveis, apenas, depressa perde a sua própria estabilidade. O turbilhão da vida atual arrasta quem nele se deixa ir, e é uma tonta ilusão, para aquele que é levado nesta corrente, nela querer manter-se de pé.
Escritos morais sobre Jó, 34


«Recebestes de graça, dai de graça»

Vós podeis, também, se o quiserdes, merecer este belo nome de mensageiros de Deus. Com efeito, se cada um de vós, segundo as suas possibilidades, na medida em que tiver recebido a inspiração do céu, desviar o seu próximo do mal, se tomar a seu cuidado trazê-lo para o bem, se recordar ao transviado do Reino o castigo que o espera na eternidade, é evidentemente um mensageiro das santas palavras de Jesus.
E que ninguém venha dizer: Eu sou incapaz de instruir os outros, de os exortar. Façam ao menos o que vos é possível, para que um dia não vos peçam contas do talento recebido e mal conservado. Porque aquele que preferiu esconder o seu talento em vez de o fazer render não tinha recebido mais do que um talento (Mt 25, 14s)...
Arrastai os outros convosco; que eles sejam os vossos companheiros na estrada que leva a Deus. Quando, indo à praça ou aos banhos públicos, encontrardes alguém desocupado, convidai-o a acompanhar-vos. Porque as vossas ações quotidianas servem, elas próprias, para vos unir aos outros. Ides a Deus? Tentai não chegardes lá sozinhos. Que aquele que, no seu coração, já escutou o apelo do amor divino tenha para com o seu próximo uma palavra de encorajamento.
Homilias sobre os evangelhos, 6


São Gregório Magno, nasceu em Roma em 540. Era filho de um senador romano, Gordiano, e de Santa Silvia. Os pais eram muito ricos. Conta-se que duas de suas tias também foram santas, Santa Tarcila e Santa Emiliana.

Dedicou-se desde muito jovem aos estudos, alcançando uma grande erudição e, ao mesmo tempo, uma grande piedade e virtude. Aos 30 anos ele foi nomeado Pretor de Roma, cargo que naqueles tempos de convulsão pelas invasões bárbaras, era equivalente a governador da cidade.

Atraído pela vida religiosa dos monges da Ordem de São Bento, Gregório resolveu entregar-se à vida religiosa. Quando morreu seu pai, Gregório recebeu como herança a fortuna de sua família, e com esses bens fundou e dotou seis mosteiros na Sicília e um sétimo em Roma, dedicado a Santo André.
Ele distribuiu grande parte de seus bens aos pobres.

Em 575, São Gregório entrou para o mosteiro. Uma doença estomacal o impedia de jejuar como os demais monges. Por isso, rogou a Deus que o curasse, para poder jejuar. Deus o atendeu, e, curado, passou a jejuar como os demais.

Em 576 ele se tornou Abade de Santo André, e dois anos depois, o Papa o enviou a Constantinopla como embaixador em missão especial. Lá, S. Gregório viveu como monge, apesar de sua missão.

Foi no período em que estava em Constantinopla que Gregório escreveu seus Comentários ao Livro de Jó, os Moralia. Esse é um dos livros mais extraordinários escritos sobre um livro da Sagrada Escritura. O próprio São Tomás de Aquino só fez do livro de Jó um comentário "ad litteram", ou seja, palavra por palavra, porque julgava que tudo o que podia ser dito desse livro do ponto de vista analógico, moral e místico, já fora dito por São Gregório Magno.

Em 590, S. Gregório foi eleito papa em votação unânime. Escreveu ao Imperador de Constantinopla que interviesse, não confirmando sua eleição. O Imperador, que bem o conhecia, deixou de atendê-lo. Ele então fugiu para não ser coroado Papa, mas uma luz milagrosa apontava seu esconderijo.

Ele irá governar a Igreja como Papa por 14 anos.
Foi São Gregório que enviou um grupo de 40 monges de seu antigo mosteiro à Inglaterra, sob a liderança de Santo Agostinho (o de Cantuária, que não deve ser confundido com Santo Agostinho de Hipona).

São Gregório, como Papa, foi um exemplo de humildade. Quando recebia louvores pelo que fazia, respondia com palavras que indicavam como era grande sua humildade.
Escreveu uma obra - A Regra Pastoral, ou simplesmente Pastoral - tratando dos deveres de um Bispo. O livro se tornou um clássico, sendo requerido que todos os Bispos do mundo nele pautassem sua conduta.
Em certo ponto desse livro, dizia São Gregório:
"Os bispos são os olhos do povo. Se os que governam o povo não têm luz, os que lhes estão submetidos só podem cair em confusão e erro".

“O verdadeiro pastor das almas é puro em seu pensamento. Sabe aproximar-se de todos, com verdadeira caridade. Eleva-se acima de todos pela contemplação de Deus.”

Não perdia de vista a santificação de sua alma. – “Eu estou pronto – assim se exprimia numa carta – para ouvir todos aqueles, que me quiserem fazer a caridade de uma repreensão salutar; considero como amigos só aqueles que possuírem a generosidade de indicar-me os meios de purificar minha alma das manchas que tem”.

Teve sempre muita preocupação com os pobres, numerosos em Roma naqueles tempos de decadência, mandando que se lhes distribuísse comida diariamente.
Ele mesmo convidava todos os dias 12 peregrinos à sua mesa, e ele mesmo fazia questão de servi-los.
Conta-se que, um dia, o próprio Cristo foi um dos peregrinos a quem ele atendeu.

Certa vez, um abade lhe pediu ajuda monetária para seu convento. Mais tarde, porém, se arrependeu por julgar que pedira muito ao Papa. Por isso, diminuiu duas vezes a quantia pedida. São Gregório, constatando a virtude do abade, o atendeu dando tudo o que ele inicialmente pedira e ainda mais, por generosidade pessoal.

Promoveu uma reforma de canto litúrgico que lhe tomará o nome - Gregoriano - cujas notas, compassadas e solenes, enchem as catedrais até nossos dias.

Ele foi declarado santo logo que morreu por "aclamação popular" no ano de 604.
Em seus documentos oficiais, Gregório foi o primeiro a fazer uso frequente do termo "Servo dos Servos de Deus"(Servus Servorum Dei) como título papal, iniciando um costume que seria seguido por todos os seus sucessores.

O diácono Pedro, que possuía  toda confiança de São Gregório, afirma ter visto muitas vezes o divino Espírito Santo, em forma de uma pomba branca, descer sobre o Santo Papa. É por este motivo que a arte cristã apresenta São Gregório Magno com uma pomba branca, pairando-lhe a cabeça.







quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Beato José Samsó i Elias

“Desejo recordar que se celebrou ontem em Mataró a beatificação do Servo de Deus José Samsó i Elias, sacerdote que destacou por sua caridade e seu zelo apostólico".
"Em seu martírio, entregou generosamente sua vida ao Senhor entre palavras e gestos de perdão e misericórdia. Que neste Ano Sacerdotal, seu exemplo sirva de estímulo aos presbíteros no solícito exercício de seu ministério pastoral e anime aos fiéis a dar em todo momento um testemunho valente e convencido de sua fé".

Papa Bento XVI 25 de janeiro de 2010

“Nosso novo beato mártir é uma glória da Igreja, um modelo de sacerdote católico e um orgulho desta nobre terra catalã. Não o mataram porque tinha se manchado de crimes, mas simplesmente porque era sacerdote”.

Dom Angelo Amato – Homilia de Beatificação 24 de janeiro de 2010

José Samsó i Elias nasceu em Castellbisbal em 17 de Janeiro de 1887. Frequentou o sacerdócio no Seminário Teológico de Barcelona, ​​onde se distingue em todos os cursos pelo seu talento privilegiado e piedade exemplar. Nos últimos anos de seus estudos, ele chamou a atenção de Dom Joseph Laguarda, que o nomeou como seu secretário particular, uma posição que ocupou até que foi ordenado sacerdote em 12 de março de 1910, celebrando sua primeira missa do dia São José Operário.

Em 23 de Julho de 1910, foi nomeado coadjutor da paróquia de São Julião de Argentona. Lá permaneceu por sete anos. Em 11 de janeiro de 1917, foi nomeado pároco da paróquia de São João de Mediona. Com a morte do pastor de Santa Maria da Mataro, foi nomeado tesoureiro-Arcipreste da cidade de Mataró e chefe da paróquia.

Era um padre modelo totalmente dedicado ao ministério do pastor. Era severo por temperamento e cheio de virtudes, tinha a compreensão dos outros e dotado com as qualidades de governo para governar as comunidades que foram confiadas a ele.

Ele ressaltou o ministério da caridade e da catequese. Sua obra mais conhecida, a este respeito é o Guia para catequistas, que foi preparado em março 1936, mas não foi publicado até 1940. 

Sua liderança espiritual incentivou muitas pessoas a seguir a sua vocação sacerdotal ou religiosa, apresentou o cronograma oportuno de missas, procurou a perfeição nos atos litúrgicos para alcançar o seu pleno esplendor do culto, e trabalhou intensamente na decoração interior da igreja Santa Maria, que em 1928 foi premiado com o título de Basílica Menor. 

Em outubro de 1934, um grupo de homens armados entraram na casa paroquial de Santa Maria, ameaçando o reitor e as pessoas que estavam com ele, obrigou-os a ir para a nave central empilharam as cadeiras, e ordenou o reitor que as amarrassem. Samsó recusou, apesar das ameaças. 

Aqueles homens incendiaram um altar e alguns utensílios. Quando eles saíram Samsó  conseguiu alguns paroquianos para extinguir o fogo. O pastor perdoou aqueles homens e não revelou a sua identidade quando foi convidado a fazê-lo pela autoridade judicial. 

A partir daquele dia até sua prisão em 1936, o padre disse várias vezes que uma perseguição de  sangue estava por vir. O perigo para ele e seu status como um padre e reitor levou-o a aceitar generosamente a possibilidade de martírio, com uma atitude de esperança. 

No início da Guerra Civil, refugiou-se na casa de paroquianos, até que, nas primeiras horas de 28 de Julho de 1936, tentando deixar a cidade por razões de prudência, foi preso e encarcerado por ser um padre. Após um mês de cativeiro na prisão Mataro, preso e paralisado, iniciou sua Via Crucis para o cemitério de Mataró, onde foi morto em 1 de Setembro de 1936.

Ele disse aos seus carrascos: “não quero que me cubram os olhos que eu não sou nenhum criminoso e quero morrer olhando para a cidade pela qual eu vivi e a paróquia pela qual eu trabalhei e saibam que como Jesus, eu também os perdoo de coração.”
Tentou inclusive abraçá-los. Um deles dizia: se ele nos abraçar não conseguiremos atirar. De fato, somente um se atreveu a disparar contra ele e matá-lo.



terça-feira, 30 de agosto de 2016

Beata Maria Ràfols

A história de Maria Ràfols é de uma mulher que fez grandes coisas através do silêncio e a da humildade, feita toda caridade e em pobreza, tanto material como espiritual. A sociedade da época a pagou com o desprezo, o cárcere e o desterro. Teve que esperar a sua morte para se começasse a reconhecer o valor de sua existência. Sua Congregação, atualmente expandida por todo o mundo, se dedica à educação, ao apostolado e à saúde, campos nos quais a mesma se destacou.
Uma cristã autêntica e sublime, porém, também uma mulher forte, valente, empreendedora, de comportamento exemplar com os feridos da guerra, os enfermos do hospital e os meninos da Inclusa.

Maria Ràfols nasceu em Vilafranca de Penedès, em 05 de novembro de 1781, em Molí d'En Rovira, lugar simples e humilde, filha de agricultores catalães.
Pouco depois de seu nascimento e batismo, em 07 de novembro, a família se mudou para outro moinho, o Molì de Mascaró, em Bleda, onde a menina passou sua infância. Não se sabe muito sobre esse período, porém, é provável que fosse pobre e humilde, como qualquer outra menina camponesa.

Muitos testemunhos falam de sua candura e piedade. Em 1794, quando tinha apenas nove anos de idade, morreu seu pai e sua mãe contraiu novo matrimônio, e a família se mudou para Garraf. A situação econômica parece que melhorou, pois há registro de que Maria Ràfols estudou interna em um colégio de Barcelona (Colégio de l'Ordre de Nostra Senyora). Em 1804, morre sua mãe.
Maria devia ter conhecimentos e formação como enfermeira, pois trabalhava nesta função, como voluntária, no Hospital de La Santa Creu de Barcelona – a cargo das Irmãs Hospitaleiras de São João de Deus – quando a encontrou o padre Juan Bonal. Este sacerdote era capelão do hospital e estava buscando religiosos para abastecer o Hospital de Gracia de Zaragoza, que carecia de pessoal adequado para atender aos enfermos, e, requerido pela junta de Zaragoza, reuniu doze homens e doze mulheres que lhe ajudaram em sua tarefa. Já então devia ver em Maria o talento e a personalidade necessárias para tal tarefa, pois ela, com apenas 23 anos, se converteu na superiora desta recém-nascida congregação.

Como e onde tomaram hábito estas doze mulheres? Não se sabe. É provável que fosse o próprio Juan Bonal quem as orientara, lhes dera hábitos e as admitira com os habituais votos de pobreza, obediência e castidade. Porém, estamos falando, pela primeira vez, de uma congregação religiosa feminina que exercerá o apostolado e que terá uma atividade fora das paredes do convento. Neste sentido, Maria Ràfols foi uma pioneira, numa época em que as religiosas ainda não haviam deixado a clausura e que o apostolado até então era negado às mulheres.
A viagem de Barcelona a Zaragoza a realizaram em uma "carroça", com todos os inconvenientes e incômodos da época, chegando em 28 de dezembro de 1804. Nesse mesmo dia vão a prostrar-se diante à Virgem de Pilar, à qual imploraram sua proteção.
O caminho que se apresentava a Maria era duríssimo: tinha apenas 23 anos e devia organizar aquela comunidade e por ordem no Hospital de Gracia, um "mundo de dor", onde se amontoavam enfermos, dementes, meninos abandonados e todo tipo de misérias, com uma dotação instrumental lamentável e deficiente, e sendo mal recebidos pelo pessoal do hospital, que fizeram tudo quanto puderam para amargar-lhes a existência, maltratando-os continuamente. De fato, após 03 anos, os homens, cansados da dura experiência, abandonaram. Porém, as religiosas não o fizeram. As mulheres, paradoxalmente conhecidas como "sexo frágil", seguiram adiante, com Maria à cabeça.

De Maria não se conhecem grandes frases. Segundo as crônicas, tudo que fez o fez “com muita prudência e discrição”, sabendo que se arriscava e que não era apreciada em seu entorno. Tudo que fez deve ter feito bem, pois, em pouco tempo, o número das religiosas aumentava. Ela mesma, com algumas irmãs, se apresenta ao exame de “flebotomia”, organizado pela Junta, para demonstrar sua habilidade na prática da sangria, intervenção habitual na medicina de então. Algo impensável para a mulher daqueles tempos, à qual não se permitia intervir diretamente sobre o enfermo.

O início da Guerra do Francês – ou Guerra da Independência – causará um terrível golpe para a cidade de Zaragoza, que padeceu um terrível sítio (1808 – 1809). É aqui onde a madre Ràfols dará mostra de seu heroísmo, onde levará a cabo suas grandes ações, sempre em silêncio, sempre sem que dela se conheçam grandes discursos.
No primeiro sítio, as tropas francesas bombardeiam a cidade, e o Hospital da Graça é destruído e incendiado. Foi necessário organizar o traslado dos enfermos e feridos a um recinto menor, com todo o caos e a aglomeração que era de se supor. Entre balas, canhões e ruínas, expôs uma e outra vez sua vida para salvar aos enfermos e aos feridos, acompanhada por umas poucas irmãs, pedindo esmola e alimento, com grande dificuldade para manter o hospital. Chegou a privar-se do próprio alimento para que o mesmo fosse dado a seus pacientes, porém, não bastava para todos (havia mais de 6000 internos no hospital).
O segundo sítio de Zaragoza foi ainda pior, chegando-se a uma situação desesperadora. Maria tomou uma resolução admirável: foi até ao acampamento do inimigo para pedir ajuda. Os franceses, ao mando do marechal Lannes, estavam acampados no atual bairro de Torrero. Ainda que ela e as religiosas que a acompanharam sofreram, em um primeiro momento, as piadas e insultos dos soldados, finalmente lograram ser atendidas pelo general, homem de reconhecido mau caráter e impiedade, que, porém, ficou comovido pelo ato da madre. Assim é descrita a cena:
“Escolheu a duas irmãs acompanhantes, tomaram em suas mãos uma bandeira de trapo branco, sinal da paz, e percorreram a rua tomando o caminho das portas de Santa Engrácia diretamente até as posições francesas, sem preocupar-se com bombas nem disparos... Imaginem o rosto dos atiradores sitiados quando as viram passar sem deter-se; o rosto dos soldados franceses quando as viram chegar: três freiras com seu hábito negro empunhando uma bandeira branca. Jamais nas batalhas europeias presenciaram tal espetáculo”.

O marechal não só lhes deu alimento e remédios para as vítimas do sítio, como também lhes proporcionou um salvo conduto para que regressassem quantas vezes necessitassem para pedir mais recursos.  E assim foi: Maria regressou uma e outra vez para trazer remédios, ataduras e os restos de comida que não queriam os franceses, para reparti-los em seu hospital. Inclusive chegou a interceder por alguns prisioneiros e lograr sua liberação.

Neste contexto de guerra, se conta um milagre da beata: o chamado “prodígio do cântaro”:
Quando os pacientes do hospital ficaram sem água, Maria não duvidou em ir à capela e pegar um cântaro de barro onde se guardava a água benta e dar de beber a todo aquele que o necessitou. Quando foi devolver o cântaro à capela e o deixou em seu lugar, comprovou maravilhada, que voltava a estar cheio de água, tal e qual o havia pegado.

Não lhe faltaram mais dificuldades. A Junta do hospital, de nova nomeação por parte do governo francês, interferiu notadamente na vida da nascente Congregação. A associação passou a ser formalmente uma Congregação Religiosa e Maria voltou a ocupar o cargo de Superiora até sua renúncia em 1829.

Este é o papel que Maria desempenhou na guerra: um exemplo de amor, caridade e entrega ao próximo, por cima de sua própria vida. No entanto, esse heroísmo humilde e silencioso não seria reconhecido em vida. Não seria até muito depois de sua morte, durante o primeiro centenário dos Sítios de Zaragoza (1908) quando se reconheceria seu impressionante trabalho, sendo proclamada Heroína dos Sítios de Zaragoza.

Acabada a guerra, em 1815, se retira a descansar durante dois escassos meses a Villafranca, seu povoado natal. Deste 1813 até 1834, se põe à frente da Inclusa, departamento de órfãos do hospital, onde permanecerá quase toda sua vida. Os meninos órfãos, os abandonados, serão seu novo campo de atuação. Vigiava os meninos que viviam ao relento, em condições lamentáveis, se ocupava dos meninos da rua, resgatava os recém-nascidos abandonados, os ilegítimos e os filhos de mães solteiras, protegendo-os, defendendo-os, dando-os em adoção ou, inclusive, acolhendo-os ela mesma quando via que não estavam recebendo o tratamento adequado.

Porém, em 1834, se viu golpeada pelo contexto das guerras carlistas. Aquela que havia servido ao próximo e à cidade de Zaragoza, de pronto se viu metida em uma conspiração e foi acusada de alta traição. Como é possível? Tudo foram calúnia e conspiração contra ela. A existência de uma prancha de chumbo que ela usava para bordar flores na roupa, serviu para acusa-la. Duas pessoas, debaixo de falso testemunho, declararam que o sacerdote do hospital, o capelão Nerin, usava essa prancha para fabricar cartuchos e balas, e que era a madre Ràfols quem a havia dado a ele. Acusada de conspirar contra a rainha, Maria foi encarcerada e passou dois meses na prisão da Inquisição, para monjas dominicanas, onde se encerrava por motivos políticos. Apesar de sofrer com resignação ao cárcere e que tenha sido declarada inocente ao comprovar-se que tudo era montagem, incompreensivelmente foi condenada ao exílio:

Aceitando sem protesto a injusta condenação, Maria tão somente solicitou que a trasladassem a uma casa que sua Congregação tinha em Huesca, petição que lhe foi concedida.
No exílio passou seis anos. A situação econômica do hospital de Huesca era também lamentável e apenas havia recursos para subsistir. Neste clima depauperado, a saúde de Maria foi se deteriorando lentamente. Em 1891, temendo encontrar-se próxima a morrer, pede para regressar de novo a Zaragoza e isto lhe é novamente concedido.
Em Zaragoza, retorna à Inclusa e se entrega de novo aos meninos órgãos e abandonados, porém, a enfermidade vai agravando-se e, por fim, morre em 30 de agosto de 1853, rodeada de suas filhas espirituais.

Faltava-lhe pouco para completar 72 anos de idade e 49 como Irmã da Caridade. Sua morte foi como sua vida: cheia de serenidade, paz, carinho e agradecimento a todos os que a haviam rodeado. Não chegou a ver aprovada a Congregação que a mesma havia fundado, porém, seus alicerces eram sólidos. Em 1858, com a autorização e ajuda da rainha Isabel II, se expande até estar presente, na atualidade, em todos os continentes.

Foi beatificada pelo Papa João Paulo II em 16 de outubro de 1994 que na sua homilia disse:

Na Beata Maria Rafols contemplamos a ação de Deus que faz "Heroína da Caridade" para o jovem humilde que deixou sua casa em Villafranca del Penedès (Barcelona) e na companhia de um padre e onze outras meninas, começa uma estrada de serviço aos doentes, seguindo Cristo e dando, como ele, "sua vida em resgate por muitos" (Mc 10, 45).

Contemplativa na ação: este é o estilo e a mensagem que nos deixa Maria Rafols. As horas de silêncio e de oração na tribuna da capela do Hospital de Gracia, em Zaragoza, estendem-se depois ao generoso serviço a todos os excluídos: os doentes, os deficientes mentais, mulheres e crianças abandonadas à própria sorte. Assim, ela diz que a caridade, a verdadeira caridade, tem a sua origem em Deus, que é amor (1 Jo 4, 8).

Depois de passar grande parte de sua vida a serviço do outro,  mortificada e no escondimento, com devoção e ternura, abraçando a cruz, consuma sua entrega final ao Senhor, deixando para a Igreja e, especialmente, para suas filhas, o grande ensinamento que a caridade não morre, nunca desaparece, a grande lição da caridade sem fronteiras, viveu na entrega de todos os dias. Todos os consagrados podem ver nela uma expressão da perfeição da caridade à qual são chamados.

domingo, 28 de agosto de 2016

"Toma e Lê" momento decisivo na vida de Santo Agostinho


(...) “Eu, não sei como, me retirei para a sombra de uma figueira, e dei vazão às lágrimas; e dois rios brotaram de meus olhos, sacrifício agradável a teu coração. E embora não com estes termos, mas com o mesmo sentido, muitas coisas te disse como esta: E tu, Senhor, até quando? Até quando, Senhor, hás de estar irritado! Esquece-te de minhas iniqüidades passadas! Sentia-me ainda preso a elas, e gemia, e lamentava: “Até quando? Até quando direi amanhã, amanhã? Por que não agora? Por que não pôr fim agora às minhas torpezas?”

Assim falava, e chorava oprimido pela mais amarga dor do meu coração. Mas eis que, de
repente, ouço da casa vizinha uma voz, de menino ou menina, não sei, que cantava e repetia
muitas vezes: “Toma e lê, toma e lê”.

E logo, mudando de semblante, comecei a buscar, com toda a atenção em minhas  lembranças se porventura esta cantiga fazia parte de um jogo que as crianças costumassem
cantarolar; mas não me lembrava de tê-la ouvido antes. Reprimindo o ímpeto das lágrimas,
levantei-me. Uma só interpretação me ocorreu: a vontade divina mandava-me abrir o livro e ler o primeiro capitulo que encontrasse.

Tinha ouvido dizer que Antão, assistindo por acaso a uma leitura do Evangelho, tomara
para si esta advertência: “Vai, vende tudo o que tens, dá-lo aos pobres, e terás um tesouro no
céu; depois vem e segue-me” – e que esse oráculo decidira imediatamente sua conversão.
 Depressa voltei para o lugar onde Alípio estava sentado, e onde eu deixara o livro do
Apóstolo ao me levantar. Peguei-o, abri-o, e li em silêncio o primeiro capítulo que me caiu sob os olhos: “Não caminheis em glutonarias e embriaguez, não nos prazeres impuros do leito e em leviandades, não em contendas e rixas; mas revesti-vos de nosso Senhor Jesus Cristo, e não cuideis de satisfazer os desejos da carne”.

Não quis ler mais, nem era necessário. Quando cheguei ao fim da frase, uma espécie de
luz de certeza se insinuou em meu coração, dissipando todas as trevas de dúvida.”