quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Eu sou uma pessoa de primavera ou outono?

Nós acreditamos e sabemos que a morte e o ódio não são as últimas palavras pronunciadas sobre a parábola da existência humana. Ser cristão implica uma nova perspectiva: um olhar cheio de esperança. Sabemos que Deus nos quer herdeiros de uma promessa e incansáveis cultivadores de sonhos.

“Eis que faço novas todas as coisas”(Ap), é novidade da esperança cristã, uma esperança baseada na fé em Deus que sempre cria novidades na vida do homem, na história e no cosmos. Novidades e surpresas.

Neste sentido, não é cristão caminhar com o olhar voltado para baixo - como fazem os porcos: sempre vão assim - sem levantar os olhos para o horizonte, como se todo o nosso caminho se consumisse aqui, no palmo de poucos metros de viagem; como se na nossa vida não existisse nenhuma meta e nenhum ponto de chegada, e nós fossemos obrigados a um eterno vaguear, sem nenhuma razão para tantas nossas dificuldades. Isto não é cristão.

As páginas finais da Bíblia nos mostram o horizonte último do caminho do crente: a Jerusalém do Céu, a Jerusalém celeste, imaginada antes de tudo como uma grande tenda onde Deus acolherá todos os homens para habitar definitivamente com eles. E esta é a nossa esperança.

Mas quando estivermos com Deus, o que Ele fará conosco? Usará uma ternura infinita em relação a nós, como um pai que acolhe os seus filhos que passaram por muitas dificuldades e sofreram muito.

Vamos ler e meditar – mas não de maneira abstrata - a profecia de João em Apocalipse 21,3-5 (onde diz que Deus enxugará as lágrimas de todas as faces e fará novas todas as coisas), mas depois de ter visto o telejornal ou as manchetes dos jornais, onde existem tantas tragédias, onde se fala de tantas notícias tristes às quais todos correm o risco de se acostumar:

Procurem pensar nos rostos das crianças amedrontadas pela guerra, ao choro das mães, aos sonhos desfeitos de tantos jovens, aos refugiados que enfrentam viagens terríveis. A vida infelizmente é também isto. Às vezes se diria que é, sobretudo, isto.
Mas diante desta realidade, existe um Pai que chora conosco; existe um Pai que chora lágrimas de infinita piedade em relação aos seus filhos. Nós temos um Pai que sabe chorar, que chora conosco. Um Pai que espera para nos consolar, porque conhece os nossos sofrimentos e preparou para nós um futuro diferente.
Esta é a grande visão da esperança cristã, que se dilata sobre todos os dias da nossa existência, e nos quer reerguer!

Deus não criou a nossa vida por equívoco, obrigando a Si mesmo e a nós a duras noites de angústias, mas nos criou porque nos quer felizes. É o nosso Pai, e se nós aqui, agora, experimentamos uma vida que não é aquela que Ele quis para nós, Jesus nos garante que o próprio Deus está operando o seu resgate. Ele trabalha para nos resgatar.

Algumas pessoas acreditam que a vida ofereça todas as suas felicidades na juventude e no passado, e que o viver seja um lento declínio, ou que as nossas alegrias sejam esporádicas e passageiras, e na vida dos homens esteja inscrita uma falta de sentido. Os que, diante de tantas calamidades dizem: Mas, a vida não tem sentido. O nosso caminho não tem sentido.

Mas nós cristãos não acreditamos nisto:

Acreditamos, pelo contrário, que no horizonte do homem existe um sol que ilumina para sempre. Acreditamos que os nossos dias mais belos estão ainda por vir. Somos gente mais de primavera do que de outono: vemos os brotos de um mundo novo antes que as folhas amareladas nos ramos. Não nos refugiamos  em nostalgias, arrependimentos e lamentações: sabemos que Deus nos quer herdeiros de uma promessa e incansáveis cultivadores de sonhos.

Não esqueçam a pergunta: Eu sou uma pessoa de primavera ou outono? De primavera, que espera a flor, que espera o fruto, que espera o sol que é Jesus, ou de outono, que está sempre com o rosto olhando para baixo, amargurado e, como disse às vezes, com a cara de pimentão no vinagre?

O cristão sabe que o Reino de Deus, o seu Senhorio de amor, está crescendo como um grande campo de trigo, mesmo que no meio exista a cizânia. E no final o mal será eliminado:

O futuro não nos pertence, mas sabemos que Jesus Cristo é a maior graça da vida: é o abraço de Deus que nos espera no final, mas que já agora nos acompanha e nos consola no caminho. Ele nos conduz à grande tenda de Deus com os homens, com tantos irmãos e irmãs, e levaremos a Deus a recordação dos dias vividos aqui embaixo:


E será bonito descobrir naquele instante que nada foi perdido, nenhum sorriso, nenhuma lágrima. Mesmo que a nossa vida tenha sido longa, nos parecerá de ter vivido um sopro. E que a criação não para no sexto dia da Gênesis, mas prosseguiu incansável, porque Deus sempre se preocupou conosco. Até o último dia em que tudo se cumprirá, na manhã em que se enxugarão as lágrimas, no instante mesmo em que Deus pronunciará a sua última palavra de bênção: "Eis que faço novas todas as coisas”. Sim, o nosso Pai é o Deus das novidades e das surpresas. E naquele dia nós seremos realmente felizes, e choraremos. sim, mas choraremos de alegria. 

Papa Francisco - 23 de agosto de 2017

23 de agosto - Santa Rosa de Lima


“O Salvador fez ouvir a sua voz e disse com incomparável majestade:

«Saibam todos que à tribulação, se segue a graça; reconheçam que, sem o peso das aflições, não se pode chegar à plenitude da graça; compreendam que com o aumento dos trabalhos cresce simultaneamente a medida dos carismas. Não se deixem enganar: esta é a única escada verdadeira do paraíso, e sem a cruz não há caminho por onde se possa subir ao céu»

Santa Rosa de Lima

Isabel Flores y de Oliva nasceu no dia 20 de Abril de 1586, na cidade de Lima (capital do Peru), no seio duma família numerosa e rica de origem espanhola. Contudo os negócios declinaram e ficaram na miséria.

Isabel foi o nome colocado no batismo. Mais tarde foi mudado para Rosa, com a aprovação do Arcebispo local, ao saber que uma criança índia tinha visto o seu rosto como uma rosa: de fato, possuía feições rosadas e era muito bela mas desde cedo, tentou disfarçar a sua beleza: esfregava os olhos com pimenta e maltratava o rosto à força de vigílias e jejuns.

Curiosamente fazia penitências logo na sua infância que eram dissimuladas pelo seu caráter alegre e simpático. Era dotada para as artes: cantava, tocava harpa e viola, fazia versos e desenhava tanto no papel como no pano.
Rosa teve também desde logo uma grande inclinação para a oração e meditação, procurando exercitar as virtudes da paciência, da penitência e da alegria.
Já adolescente, enquanto rezava diante da imagem da Virgem Maria, decidiu entregar sua vida somente a Cristo. Os pais queriam casá-la e tinha vários pretendentes mas ela recusou, defendendo-se com o voto de virgindade que tinha feito muito cedo.

Ingressou na Ordem Terceira de S. Domingos, inspirada pela vida Santa Catarina de Sena. Dedicou-se, então, ao jejum, às severas penitências e à oração contemplativa, aumentando seus dons de profecia e prodígios. Os pais indignaram-se com as atitudes que Isabel adotara e começaram a maltratá-la ocupando-a dos trabalhos mais duros da casa o que ela fazia sem se queixar e sem abandonar os seus exercícios de piedade.

Aos vinte anos, pediu e obteve licença para emitir os votos religiosos em casa e não no convento, como terciária dominicana.
Quando vestiu o hábito e se consagrou, mudou então o nome para Rosa e acrescentou Santa Maria, por causa de sua grande devoção à Virgem Maria, passando a ser chamada Rosa de Santa Maria.

Construiu uma pequena cela no fundo do quintal da casa de seus pais, levando uma vida de austeridade, de mortificação e de abandono à vontade de Deus. Passou a sustentar a família com as rendas e bordados que fazia, pois seu confessor consentiu que ela não saísse mais de sua cela, exceto para receber a Eucaristia.
A partir da tomada do hábito, imprimiu ainda mais rigor nas suas penitências. Começou a usar, na cabeça, uma coroa de metal espinhento, disfarçada com botões de rosas. Aumentou os dias de jejum e dormia sobre uma tábua com pregos. Estes são apenas alguns exemplos do que Rosa fazia por amor à Paixão de Cristo penitenciando o seu corpo.

Vivendo em contínuo contato com Deus, atingiu um alto grau de vida contemplativa e experiência mística, compreendendo em profundidade o mistério da Paixão e Morte de Jesus. É-lhe reconhecido o dom da profecia e penetração dos corações, o dom dos milagres e tinha êxtases com frequência e por vezes com duração de 48 horas e até de 62 horas!

Aos trinta e um anos de idade, em Abril de 1617, foi acometida por uma grave doença, que lhe causou sofrimentos e danos físicos até à morte (24 de Agosto - dia de São bartolomeu - como havia previsto).
Encontrando-se a morrer, olhava para a mãe aflita, que estava junto à sua cabeceira e, com alusão evangélica à parábola das 10 virgens disse-lhe:
“Tenho de ser pontual; se não chegar à hora marcada, fechar-me-ão as portas como às virgens loucas” Fez sobre si o sinal da cruz e suspirou: “Jesus, Jesus, está comigo!”

Rosa foi beatificada em 1667 e canonizada a 12 de Abril de 1671 pelo papa Clemente X.


(…)Ó, se os mortais conhecessem o que é a graça divina, como é bela, nobre e preciosa, quantas riquezas encerra, quantos tesouros, quantas alegrias e delícias em si contêm!

(…) Ninguém se queixaria da cruz nem dos sofrimentos que porventura lhe advêm, se conhecesse a balança em que são pesados para serem distribuídos pelos homens”

“Oh, que daria eu por anunciar o Evangelho! Atravessaria cidades pregando a penitência, com os pés descalços, o crucifixo na mão e o corpo envolvido num cilício espantoso. Caminharia durante a noite gritando: deixai as vossas iniquidades. Até quando sereis como rebanhos aturdidos diante dos demônios? Fugi dos castigos eternos; pensai que há só um instante entre a vida e o inferno”

terça-feira, 22 de agosto de 2017

22 de agosto - Beato Bernardo Peroni de Offida

O Amor que se manifestava no seu rosto estimulava à oração. O Amor que lhe era doado na Eucaristia ele o restituía carregando os fardos pesados de quem se encontrava cansado pelo caminho, pacificando as desavenças de quem não se sentia mais irmão, acudindo as fadigas e as dores de quem jazia doente acamado. E ninguém resistia à sua candura, à sua bondade, ao seu grito angustiado: “Permaneçam com Deus! Temam a Deus! Amem a Deus! Fujam do pecado! Sejam bondosos"!

Bernardo Peroni de Offida nasceu em Vila de Appignano, nas vizinhanças de Offida, terceiro de oito filhos, aos 07 de novembro de 1604, e o pai José o levou no mesmo dia para ser batizado na antiga igreja de Santa Maria da Roca, fora dos muros.
Domingos (assim se chamava) cresceu forte e robusto no campo onde viveu sua infância e juventude. Aos 15 anos, em 1619, passou da guarda do rebanho para a guarda dos bois e começou a mexer com o arado.
A vida austera dos capuchinhos, estabelecidos em Ofida em 1614, era para ele um forte apelo, onde encontrava particular sintonia de Espírito. Frequentava a sua singela e devota igreja. Mas esperou ainda vários anos quando falou, finalmente, para os pais e depois para os freis de quem não recebeu nenhuma resistência. Aos 15 de fevereiro de 1626, em Corinaldo, vestiu o hábito de noviço,  um ano depois, em Camerino, fez a primeira profissão tomando o nome de Bernardo.
Foi mandado logo depois para o convento de Fermo como ajudante de cozinha e assistente dos confrades enfermos, onde permaneceu por vinte anos. Em seguida, foi para Áscoli, passando também por vários outros conventos. Em 1650 fixou morada definitivamente no convento de Offida, de onde não saiu mais, com exceção de uma breve pausa de poucos meses em Áscoli. Em Ofida viveu ininterruptamente por 45 anos.
Uma vida simples desenvolvida num ambiente geográfico muito limitado, sem longas viagens fora das Marcas, desconhecido na humildade dos serviços ordinários de um irmão não clérigo capuchinho: cozinheiro, enfermeiro, esmoler, hortelão, porteiro, tudo cheio de devoção e de oração.

Rezava sempre. Na igreja permanecia absorto diante do tabernáculo ou qualquer imagem sagrada, com os olhos elevados para o céu, firme como uma estátua, com os braços levantados.
Enamorado da Eucaristia, tinha um respeito profundo pelos sacerdotes. É necessário olhar os processos para dar um pouco de variedade e de movimento a esta vida desconhecida. Também quando saía para esmolar se escondia na sua interioridade. Nunca era surpreendido distraído. Sempre com os olhos baixos, o rosário nas mãos, pacato nos gestos, afável no falar.

Alguém testemunha dele o seguinte: "Um dia de inverno, depois de ter nevado muito, Frei Bernardo chegou numa cidadezinha para pedir esmolas afundando os pés na neve. Uma mulher, na janela, vendo o "santo velho" passando, começou a chorar e a gritar: "Pobre Frei Bernardo"! Ele, com grande jovialidade, respondeu: "Filha, não é nada, não é nada. A graça de Deus não deixa sentir frio". Dizendo isto, tirou o pé direito da sandália, o colocou nu sobre a neve que desapareceu como por encanto, como se alguém houvesse jogado água quente".

Frei Bernardo era um verdadeiro missionário para a pobre gente do campo. Aos aflitos levava alívio com a serenidade do seu rosto e suas simples palavras. Era um conselheiro que penetrava os corações também dos nobres e prelados, a quem sabia falar com profundidade teológica, embora fosse analfabeto e suas palavras não raramente se tornavam palavras proféticas.

Um outro aspecto da sua humanidade era a misericórdia para com os doentes, os pobres e encarcerados. Os doentes do convento gostavam de estar doentes por causa da assistência amorosa de Frei Bernardo que inventava mil expressões de caridade, ao ponto de permanecer na enfermaria, dia e noite, dispensado-se de qualquer outro ofício, para estar sempre pronto a servir.

Já perto dos 90 anos, Frei Bernardo, com o agravamento dos distúrbios (hérnia, artrite, erisipela) despertava compaixão. Em 1694 a sua erisipela o prostrou totalmente, mas o seu espírito se tornou ainda mais luminoso.
Uma testemunha refere que "demonstrava tanta alegria no rosto e nas palavras que parecia não estar enfermo, mas que se deliciava".
Queria despojar-se de tudo e pedia ao seu guardião "por caridade" de fazer uso apenas do hábito e mais nada.
Recebidos todos os sacramentos foi visto como que em êxtase. Depois recomendou aos confrades a observância da regra, a paz e o amor entre eles e para com o próximo e de rezar pelos benfeitores e animou muitas pessoas presentes à fidelidade a lei de Deus e a educação cristã dos filhos. E aos 22 de agosto de 1694, quando o sol surgia, ele serenamente expirava.

Somente em 1745 teve início o processo de beatificação e canonização. Pio VI, a 19 de maio de 1795, o declarava Beato e seis dias depois era celebrada a beatificação na Basílica Vaticana.


22 de agosto - Nossa Senhora Rainha

Rainha do mundo e da paz

Considera com que justa disposição refulgiu, já antes da assunção, o admirável nome de Maria por toda a terra. Sua fama extraordinária por toda a parte se espalhou antes que sua magnificência fosse elevada acima dos céus. Pois convinha que a Virgem Mãe, em honra de seu Filho, primeiro reinasse na terra, em seguida, fosse recebida gloriosa nos céus. Fosse amplamente conhecida na terra, antes de entrar na santa plenitude. Levada de virtude em virtude, fosse assim exaltada de claridade em claridade pelo Espírito do Senhor.  

Presente na carne, Maria antegozava as primícias do reino futuro, ora subindo até Deus com inefável sublimidade, ora descendo até os irmãos com inenarrável caridade. Lá recebia os obséquios dos anjos, aqui era venerada pela submissão dos homens. Servia-lhe Gabriel com os anjos; ao lado dos apóstolos servia-lhe João, feliz por lhe ter sido confiada a Virgem Mãe a ele, virgem. Alegravam-se aqueles por vê-la rainha; estes por sabê-la senhora. Todos a obedeciam de coração. 

E ela, assentada no mais alto cume das virtudes, repleta do oceano dos carismas divinos, do abismo das graças, ultrapassando a todos, derramava largas torrentes ao povo fiel e sedento. Concedia a saúde aos corpos e às almas, podendo ressuscitar da morte da carne e da alma. Quem jamais partiu de junto dela doente ou triste ou ignorante dos mistérios celestes? Quem não voltou para casa contente e jubiloso, tendo impetrado de Maria, a Mãe do Senhor, o que queria? 

Ela é esposa repleta de tão grandes bens, mãe do único esposo, suave e preciosa nas delícias. Ela é como fonte dos jardins inteligíveis, poço de águas vivas e vivificantes, que correm impetuosas do Líbano divino, fazendo descer do monte Sião até às nações estrangeiras vizinhas rios de paz e mananciais de graças vindas do céu. E assim, ao ser elevada a Virgem das Virgens por Deus e seu Filho, o rei dos reis, no meio da exultação dos anjos, da alegria dos arcanjos e das aclamações de todo o céu, cumpriu-se a profecia do Salmista que diz ao Senhor: Está à tua destra a rainha recoberta de bordados a ouro, em vestes variadas (Sl 44,10).
  

Das Homilias de Santo Amadeu, bispo de Lausana – Século XIII

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

21 de agosto - Beata Vitória Rasoamanarivo

"Se alguém me ama, observará minha palavra e meu Pai o amará e nós iremos até ele e moraremos com ele" (Jo 14, 23).

Hoje, estamos honrando uma mulher que realmente amou Cristo; Uma mulher que permaneceu fiel à palavra do Senhor: Vitória Rasoamanarivo. A Igreja reconhece sua santidade, com os irmãos e irmãs desta terra que a admiram, inspirados por seu exemplo, e que contam com sua intercessão. A Igreja em Madagascar e a Igreja no mundo saúdam-na como a pessoa em quem Deus vive, como uma irmã que está próxima na misteriosa realidade da comunhão de santos.

A Vitória, de fato, viveu intensamente o dom da fé desde a sua iniciação cristã como catecúmena. Congratulou-se com o Espírito de Cristo. Ela conseguiu preservar, ao longo de sua vida, a memória viva da Palavra de Jesus (Jo 14,26). Com a força do "Consolador", ela encontrou coragem para a fidelidade infinita.

No profundo do seu ser, Vitória permaneceu incessantemente na presença de Deus. Todos ficaram impressionados com a intensidade de sua oração. Estando familiarizada com a presença de Deus, ela sabia como transmitir aos outros esta intimidade com o Senhor. À imagem da Virgem Maria, ela realizou durante toda a vida uma peregrinação de fé. Ele deu à União Católica um conselho: "Primeiro, santifiquemos a nós mesmos, então nos preocupemos em santificar os outros". O testemunho de sua ação demonstra que não foi uma piedade fechada em si mesma. Pelo contrário, Vitória não podia conceber que um cristão poderia trazer as boas novas a seus irmãos sem abrir todo o seu ser ao poder da graça. Por esta razão, mesmo entre as atividades e as preocupações, sempre houve muito tempo para a oração.

Para os cristãos de hoje, Vitória nos ensina a viver seu próprio batismo. Uma adolescente, educada pelas irmãs de São José de Cluny, se prepara seriamente para entrar na Igreja. Descobrindo os mandamentos de Deus, ela está imediatamente determinada a observá-los, a lutar contra o pecado. Pratica a obediência à lei de Deus numa alegre liberdade interior, como a que ama. Por isso, recebe a nova vida que foi doada para ela. O sacramento do batismo realmente significa que ela se deixou atrair pela presença do Cristo ressuscitado! Sua conversão é tão livre e pura que dá a impressão, desde o início, de ser cristã ao longo de seu ser. A Crisma acabará por torná-la fiel, um "templo do Espírito Santo", como diz o apóstolo.

Rezamos pela Vitória para ajudar as crianças e filhos de Madagascar a receber o dom da fé da maneira generosa como ela recebeu. Rezamos para arrastar os irmãos e irmãs malgaxes para colocar todas as suas vidas à luz de Cristo, iluminando os batizados, guiando suas decisões, sustentando-os no sofrimento e acompanhando-os com alegria.

Também tirem o exemplo dela para descobrir seu profundo amor pela Missa, a que ela nunca quis perder. A comunhão com o Corpo de Cristo é o verdadeiro alimento dos batizados, pois é o encontro mais íntimo com o Senhor: ele fez pão de vida para que possamos participar de sua vida. Ele se entrega em comunhão porque nossos laços fraternos são fortalecidos e expandidos através de sua presença de amor. Ele queria que seu sacrifício fosse celebrado em todos os momentos para que todas as gerações fossem oferecidas nele ao Pai pela salvação e reconciliação do povo.

Também sabemos que valor a fidelidade que Vitória mostrou ao sacramento do casamento, apesar das evidências a ele vinculadas. Seu compromisso havia sido fechado diante de Deus e, portanto, ela não queria questioná-lo. Com o apoio da graça, ela respeitou o noivo apesar de tudo, e manteve seu amor no ardente desejo de recorrer ao Senhor e conquistar; Ela recebeu o consolo de ver o marido finalmente aceitar o batismo.

Irmãos e irmãs, no exemplo da Vitória, nunca deixam de beber da água viva dos sacramentos: são os presentes inesgotáveis ​​de Cristo para Sua Igreja!

Papa João Paulo II – Homilia de Beatificação – 30 de abril de 1989

Rasoamanarivo nasceu em Antananarivo em 1848; é a quarta filha de uma família de sete filhos. Seu pai se tornará protestante. Sua mãe é conhecida por sua doçura e bondade. A família pertence a uma das quinze tribos de Madagascar, as "hovas", que vivem no coração da ilha. Esta tribo tornou-se a mais poderosa e rica do reino após a rainha Ranavalona I (1828-1861) nomear como conselheiro do príncipe o avô Rasoamanarivo. A família forma um clã impenetrável instalado em grandes casas construídas perto do palácio da rainha. O regime político é um absoluto despotismo.

A jovem tem uma infância despreocupada e ociosa; sabe todas as práticas supersticiosas de sua cidade e carrega com ele algum amuleto destinado a remover todo infortúnio. Quando a rainha Ranavalona morre, a que seu filho Radama II sucede, ela tem treze anos de idade. Ele autoriza os missionários católicos a se estabelecerem em Madagascar. Graças à benevolência do rei, os padres jesuítas se estabeleceram em Antananarivo nos últimos meses de 1861, acompanhados por duas Irmãs de São José de Cluny, que abriram a primeira escola católica para meninas e jovens na capital. Rasoamanarivo, que é uma das primeiras estudantes, destaca-se pela seriedade e pelo ardente desejo de conhecer a religião. Mais tarde, ela contará a seguinte história: "Entrei na igreja fazendo mal, mordiscando uma fruta. De repente, olhei para o tabernáculo e me senti completamente atordoada, como se alguém de lá me olhasse! Eu me senti vergonha do que estava fazendo e saí para jogar a fruta. Então entrei na igreja e me dei de joelhos para orar ".

Em 1 de novembro de 1863, Rasoamanarivo recebeu o nome de Vitória no batismo, juntamente com 25 catecúmenos. Sua madrinha é a superiora das religiosas, Irmã Gonzaga. Os recém-batizados recebem a primeira comunhão no dia 17 de janeiro seguinte, sendo consagrados a Maria durante a cerimônia. Esta primeira celebração atrai uma grande audiência para a igreja de Andohalo, entre os quais há protestantes e pagãos que consideram com certa preocupação o desenvolvimento do catolicismo no país.

Na época da primeira comunhão, Vitória tem quinze anos e a família planeja o casamento dela. Preferiria me tornar religiosa, mas não a deixam escolher. Mais tarde, durante a guerra de 1883, ela afirmará: "Deus não o permitiu. Ele já estava pensando sobre o que está acontecendo hoje. Se eu fosse religiosa neste momento, seria impossível para mim,  fazer pela Igreja o que agora eu posso fazer ". Em 13 de maio de 1864, Vitória se casou com seu primo Radriaka. De acordo com os costumes da época, o casamento teve que permanecer no círculo restrito da família. Devido ao seu alto nível, Radriaka administra uma parte do exército malgaxe. Pouco depois desse casamento, Rainilaiarivony, tio e sogro de Vitória, é nomeado primeiro-ministro. Rainilaiarivony tem uma grande admiração pela sua sobrinha e pela fé que ela professa, um carinho que em breve será conhecido por todos.

A rainha Rasoherina, que sucedeu Radama II em 1863, confia a educação de seus filhos adotivos aos missionários católicos, mas a rivalidade dos protestantes coloca obstáculos no seu apostolado. A partir de 1867, o protestantismo tornou-se religião oficial, aumentando seu poder quando obteve a adesão da rainha Ranavalona II. 
Pressões são exercidas para atrair católicos para a religião reformada, na medida em que essas pressões são sentidas dentro da família do primeiro ministro. Vitória, ainda na escola apesar da idade, opõe-se a frequentar a escola protestante. Chora muito por isso, dia e noite, par que eles a devolvam à escola das freiras católicas. Rainimaharavo, outro tio de Vitória, é uma das pessoas que estão mais decididas a atacar os católicos. Torna-se o chefe da família, interveio mais de uma vez contra sua sobrinha para atraí-la para o protestantismo, mas Vitória opõe-se a essas exortações com grande firmeza. Um dia, ela responde: "Em vão ele espera me intimidar com suas ameaças. Elas apenas servem para me afirmar na fé. Estou ansiosa para o dia em que eu seja expulsa  da casa. Então, aliviada de toda preocupação, eu irei pela cidade pedindo hospitalidade para pessoas que sentem algum carinho por mim. Mas, quanto a me fazer renunciar à minha religião, ninguém conseguirá isso neste mundo ". Em outra ocasião, ela afirma: "Minha pessoa pertence a ele, pois ele é o chefe da tribo. Mas minha alma é de Deus e não vou mudar isso por dinheiro ".

A partir da sua posição como parente da família real, tornou-se protetora dos católicos. Conseguiu que as escolas e as igrejas católicas permanecessem abertas; deu coragem aos católicos do campo enviando-lhes mensageiros; intercedeu diretamente por eles junto da rainha e do primeiro ministro. Em 1886, os missionários católicos foram autorizados a regressar a uma comunidade de 21000 fiéis que se tinha mantido por causa da beata Vitória.
Ela passava seis a sete horas por dia em oração e realizava obras de caridade pelos pobres e abandonados, pelos prisioneiros e pelos leprosos. Em 1894, morreu com a idade de 46 anos.