domingo, 7 de setembro de 2014

Homília do Papa João Paulo II na Beatificação de João Baptista Mazzucconi

“Um testemunho semelhante de fé e caridade ardentes foi dada à Igreja e ao mundo por João Baptista Mazzucconi, que consumiu no martírio a sua jovem vida de sacerdote e missionário.

Membro, entre os primeiros, do Pontifício Instituto para as Missões Estrangeiras de Milão, ele sentiu que as missões eram "desejo secreto" de seu coração. No horizonte de sua vida, ele podia ver a união ainda mais profunda com Cristo, uma união que se uniram com o sofrimento e a cruz do seu Senhor e Mestre, precisamente por causa de seus esforços incansáveis ​​para a evangelização:

 “Feliz o dia em que me será dado sofrer muito por uma causa tão santa e humana, mas mais feliz ainda aquele em que serei julgado digno de por ela verter o meu sangue e de encontrar a morte no meio dos tormentos. Meu Deus, vós que inspirais estes ideais tão sublimes às minhas pobres forças, socorrei-me com esse Espírito todo poderoso que primeiro investiu os vossos santos Apóstolos.”

A mensagem cristã que Mazzucconi proclamou aos nativos da Woodlark, foi uma condenação aberta de sua conduta: os horrores do infanticídio.
E, apesar da imensa caridade e dedicação incansável do bem-aventurado, sua pregação estava causando irritação e ódio. Mas ele era permanecia sobrenaturalmente calmo, em meio às dificuldades, às febres, a oposição, porque vivia intimamente unido a Deus.
Parafraseando as palavras de São Paulo pôde escrever:

 "Eu sei que Deus é bom e me ama imensamente. Tudo o resto: a calma e a tempestade, perigo e segurança, vida e morte, que não são expressões mutáveis ​​e fugazes de querido Amor imutável, eterna ".

Por todos esses mártires, de diferentes idades, foram cumpridas as palavras de Cristo aos seus apóstolos: "cuidado com os homens, porque eles vão entregar aos seus tribunais. “Você vai ser levados perante governadores .. por minha causa. Irmão levando irmão à morte. E sereis odiados de todos por causa do meu nome”(Mt 10, 17-22).

O padre Mazzucconi recebeu o golpe fatal com um machado por um nativo, que se levantou e se aproximou do navio, fingindo cumprimentá-lo gentilmente ofereceu-lhe a mão para apertar.

Tudo isso vai acontecer - disse Jesus - "para dar um testemunho a eles e aos gentios."
Sim, nossos mártires foram capazes de dar testemunho diante de seus juízes, seus algozes, e diante daqueles que participaram como espectadores de sua punição, a ponto de que eles "não podia deixar de ser surpreendido e dizer, embora, que havia algo de extraordinário nessas mortes, que só a religião pode inspirar em seus últimos momentos "(Diário do padre Simon Gruget).

Jesus tinha anunciado o mistério: "Quem perseverar até o fim será salvo" (Mt 10, 22). E como vai perseverar? "Não fique ansioso como ou o que haveis de falar, porque ali será dado naquela hora que você deve dizer...  É o Espírito de vosso Pai é que fala em vós "(Mt 10, 19-20). Sim, aqueles que permanecem fiéis ao Espírito Santo são a certeza de ser capaz de contar com a sua força na hora de dar testemunho de uma maneira que confunde os homens.

É pelo poder de Deus que os mártires foram vitoriosos. Eles forneceram a força do amor de Deus: "Se Deus é por nós, quem será contra nós?" (Rm 8, 31).
Eles fixaram o olhar em sacrifício de Cristo: "Deus ... deu o seu próprio Filho para todos nós; não como também nos dão tudo junto com ele "(Rm 8, 32)?.

Em uma palavra, eles participaram do mistério da Redenção, que consumiu Cristo no Calvário, e é prolongado no coração dos homens ao longo de sua história. Recentemente, convidei todos os fiéis da Igreja a refletir sobre este sofrimento redentor. Para os mártires, a cruz de Cristo era ao mesmo tempo, a fonte misteriosa de sua coragem, o seu sentido de testar o modelo, para dar testemunho do amor do Pai, por meio de seu sacrifício, unido ao de Cristo, e para ir com ele na ressurreição.”

Homilia do Papa João Paulo II
Basílica Vaticana -  Domingo, 19 fevereiro de 1984


Beato João Baptista Mazzucconi

Nasceu em uma família profundamente cristã, 
seus pais tinham uma fábrica e eram muito estimados pela sua generosidade. Eles tiveram doze filhos, três dos quais se tornaram sacerdotes e quatro das filhas foram freiras. João, o nono filho, foi ordenado sacerdote em 1850 e, em seguida, entrou no Seminário das Missões Estrangeiras fundada recentemente (atualmente conhecido sob o título de PIME: Pontifício Instituto das Missões Estrangeiras).

Com ele os aspirantes missionários são seis e começam uma preparação intensa, mas incompleta dado a região para onde serão enviados: a Oceânia.
Em Março de 1852, embarcam em Londres com destino à Austrália cinco padres: Paulo Reina, Carlos Soleri, Timoleon Raimondi, Angel Ambrosoli e João Mazzucconi, juntamente com os catequistas Luís Tacchini e José Corti.

Da Austrália partem, em Outubro, para a sua área de missão, são divididos em grupos nas pequenas ilhas de Rook e Woodlark, perto da Nova Guiné. Recebem as instruções dos missionários Maristas, que se retiram completamente desmantelados.
O seu amor à missão que lhe era confiada, levou-o a este arrebatamento, numa oração que é agora recitada por todos os missionários do PIME:

“Feliz o dia em que me será dado sofrer muito por uma causa tão santa e humana, mas mais feliz ainda aquele em que serei julgado digno de por ela verter o meu sangue e de encontrar a morte no meio dos tormentos. Meu Deus, vós que inspirais estes ideais tão sublimes às minhas pobres forças, socorrei-me com esse Espírito todo poderoso que primeiro investiu os vossos santos Apóstolos.”

Mazzucconi, com o Padre Reina, o Padre Ambrosoli e José Corti, estabelece-se em Rook.
Mas ele logo caiu doente, e o seu estado de doente fá-lo sentir com mais força a hostilidade dos habitantes da ilha.
Mazzucconi logo descobre que “os pais e as mães matam mais de metade dos seus filhos recém nascidos”.
Tudo vai mal. Mas ele aceita a situação, esforça-se para compreender os locais e encontra maneiras de ganhar a confiança das pessoas, superando as dificuldades e perigos. Mas as febres terríveis obrigaram-no a ir para receber tratamento médico na Austrália.
Uma vez curado, volta a embarcar e quatro meses depois, reaparece em Woodlark numa escuna chamada Gazelle. Aqui, recebe a notícia da morte de Corti, e que todos os missionários tiveram que voltar para a Austrália, sem terem podido anunciar-lhe este retorno.
Numa carta escrita dois dias antes de embarcar, João Baptista escreveu este texto que parece bem premonitório:

“Eu não sei o que Ele me prepara de novo para esta viagem que começo amanhã; eu só sei que Ele é bom e que Ele me ama imensamente, o resto: a calma e a tempestade, o perigo e a segurança, a vida e a morte, nada mais são do que expressões transitórias e momentâneas do querido Amor inalterável, eterno. Sim, meus queridos amigos, nós temos um outro país uma outra pátria, um reino onde nós devemos encontrar-nos todos, onde não haverá nem separações nem partidas, onde as dores e os perigos passados a nada mais servirão do que aumentar a consolação, a glória.”

Encontrava-se agora sozinho no meio da tripulação da Gazelle. Foi o primeiro a morrer: um nativo da ilha, subiu ao barco no aparente desejo de o saudar, mas apenas a bordo, acertou-lhe um golpe de machado na cabeça, e logo a seguir, numerosos outros entraram no barco: começou então a matança e o saque. Os corpos das vítimas eram atirados ao mar.
Meses depois uma expedição vinda da Austrália chegou à pequena ilha, para coletar provas sobre este crime, no local mesmo onde ele ocorreu e para conhecer as circunstâncias do seu martírio.125 anos depois, um membro do Pontifício Instituto das Missões Estrangeiras, nosso contemporâneo, escreveu o seguinte sobre João Baptista Mazzucconi:

“Não é uma personagem a meter num nicho... é um jovem moderno e atual pela sensibilidade e mentalidade que teve, pelo caminho que traçou, pela vocação missionária que realizou” (Piero Gheddo).


João Baptista Mazzucconi foi beatificado a 19 de Fevereiro de 1984, pelo Papa João Paulo II.

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Oração da Santa Madre Teresa de Calcutá pelo Papa João Paulo II

“Senhor,
Quisestes uma vez mais ao vosso lado, na cruz,
O nosso Papa João Paulo II
Para recordar ao mundo
Que só na cruz está a ressurreição e a vida
Pela cruz nos recordas que remistes o mundo.
E o discípulo de Cristo sabe
Que só abraçando a cruz continua no tempo
E na história de cada homem e de cada mulher
A obra da Redenção.
Com o Papa no hospital, Senhor, Vós nos fazeis
Compreender que tambem ele, crucificado na carne,
Se une a todos aqueles que, no mundo, trazem
Gravados os estigmas da paixão de Jesus Cristo.

Sob o peso da cruz, o Papa,
Tal como Jesus, ensina-nos
A “amar”a cruz. A cruz do cristão
É sempre uma santa cruz.
Ensinai-nos, Senhor, a saber ficar
Sob o madeiro da cruz.
Depois da cruz, Senhor, vem a aurora radiosa
Da Ressurreição. E esta aurora de Ressurreição
Já o nosso Santo Padre a encontrou,
Em maio e 1981, depois de ter vencido a noite escura
Daquele trágico evento. Como então, tambem hoje,
O Papa voltará a servir a Igreja, depois de a ter
Uma vez mais amado aos pés da cruz.
Dai outra vez, Senhor, a João Paulo II, a força
De servir a Igreja e todos os povos do mundo.
Dai-lhe outra vez a alegria de poder apertar as mãos das crianças, dos órfãos, das viúvas
E dos últimos deste mundo.
O Santo Padre é para nós presença e graça,
É esperança e é certeza.
Que a nossa certeza não seja comprometida,
Sobretudo nos momentos de dor e de provação.


Obrigado, Senhor, por todo o bem que nos quereis.”

Madre Teresa de Calcutá
L’Osservatore Romano 24/08/1992

Deus abençoa a sua obra

"Era a minha primeira volta pelas ruas de Calcutá depois de ter deixado Loreto e ter regressado de Patna. A certa altura aproximou-se mim um sacerdote pedindo-me um donativo para uma coleta que estava a realizar-se a favor da boa imprensa. Tinha saído de casa com cinco rúpias. Já tinha dado quatro aos pobres. Entreguei-lhe a única rúpia que me restava. ao entardecer, o mesmo sacerdote veio ao meu encontro com um envelope. disse-me que lhe tinha sido dado por um senhor desconhecido que ouvira falar dos meus projetos e me queria ajudar. No envelope vinham cinqüenta rúpias. Naquele momento tive a sensação de que Deus começava a abençoar a minha obra e que nunca me abandonaria."

O Dia da Inspiração

O dia 10 de setembro de 1946 ficou marcado na história das Missionárias da Caridade e, obviamente, no livro da vida da Madre Teresa como o "dia da inspiração". Numa viagem de trem ao noviciado do Himalaia, recebe uma claríssima iluminação interior: dedicar a sua vida aos mais pobres dos pobres. Relatou-o assim:

"Em 1946, ia de Calcutá a Darjeeling, de trem, para fazer o meu retiro. Nunca é fácil dormir nos trens, mas tentar fazê-lo num trem da Índia é impossível: tudo range, há um penetrante odor de sujidade pelo amontoamento de homens e animais, todo um detrito de humanidade, cestos, galinhas cacarejando... Naquele trem, aos meus trinta e seis anos, percebi no meu interior uma chamada para que renunciasse a tudo e seguisse Cristo no subúrbios, a fim de servi-lo entre os mais pobres dos pobres. Compreendi que Deus desejava isso de mim..."

Irmã Teresa pensava nos pobres de Calcutá que todas noites morrem pelas ruas e que na manhã seguinte, são lançados para o carro da limpeza como se fossem lixo. Não! Ela não conseguia habituar-se a esse terrível espetáculo de pessoas esqueléticas morrendo de fome ou pedindo esmola pelas ruas.

A longa e dolorosa meditação que fizera terminou com uma pergunta muito concreta: que poderei fazer por estes infelizes? Aqui a angústia da sua alma cresceu. Amava a Congregação, gostava de ensinar... quase nada poderia fazer dentro dos regulamentos a que amorosamente se sujeitara e que cumprira com toda a fidelidade. Mas Deus não pediria mais? Não seria talvez necessários ir ter com as superioras e com as autoridades eclesiásticas e expor-lhes frontalmente o problema, pedir-lhes até autorização para fazer a experiência de se colocar totalmente ao serviço dos mais pobres?

Foi assim, com todas estas interrogações que a Irmã Teresa viveu o seu retiro daquele ano. Na oração e na meditação daqueles dias, mais se confirmou que a aspiração que lhe brotava do fundo da alma não era um capricho mas manifestação da vontade de Deus.
Tendo regressado a Calcutá, foi ter com o arcebispo Mons. Fernando Périer a quem expôs o seu plano. Ele ouviu atentamente e, no fim, calmo, frio, disse um não absoluto que não deixou hipóteses para qualquer dúvida.

A Irmã Teresa aceitou humildemente a recusa. Mais tarde comentá-la-á assim: "Não podia ter sido outra a sua resposta. Um bispo não pode autorizar a primeira religiosa que se lhe apresenta com projetos raros sob pretexto de que essa parece ser a vontade de Deus"

Voltou às lides diárias que cumpria cada vez com maior dedicação e entusiasmo. O carinho das alunas demonstrado de tantas maneiras e a amizade das companheiras não lhe fizeram esquecer a imagem horrorosa dos doentes e dos famintos que morriam pelas ruas de Calcutá. Mas por vezes, apresentava-se-lhe angustiosa esta pergunta: não será tudo isto uma tentação do demônio?

Um ano depois, foi ter novamente com o arcebispo. Levava nos lábios o mesmo pedido e no coração a mesma disposição para aceitar, com humildade e alegria, a resposta qualquer que ela fosse. Mons. Périer escutou, mais uma vez, as razões da Ir. Teresa. A sua simplicidade, fervor e persistência convenceram-no de que estava perante uma manifestação da vontade de Deus. Por isso, desta vez, mais afável, aconselhou:

- Peça primeiro autorização à Madre Superiora.

A Irmã Teresa escreveu prontamente uma carta expondo o seu plano. A Superiora viu nessas linhas a expressão da vontade de Deus. O que aquela religiosa pedia era algo muito sério e exigente. Por isso, respondeu-lhe nestes termos: "Se essa é a vontade de Deus, autorizo-te de todo o coração. De qualquer maneira, lembra-te sempre da amizade que todas nós te consagramos. Se algum dia, por qualquer razão, quiseres voltar para o meio de nós, fica sabendo que te receberemos com amor de irmãs."

Mons. Périer pediu autorização a Roma para Irmã Teresa deixar as Irmãs de Loreto, "para viver só, fora do claustro tendo Deus como único protetor e guia, no meio dos mais pobres de Calcutá."