“E pelo que diz
respeito à Companhia de Jesus, é preciso que saibais que fizemos um pacto -
todos os jesuítas do mundo, cujo número deve ultrapassar os cálculos da
Inglaterra - de levar com alegria as cruzes que puserdes sobre nós e de nunca
desesperar da vossa conversão, enquanto tivermos um só homem para ser
despedaçado nos vossos suplícios ou definhar e morrer nas vossas masmorras. O
custo está calculado, a empresa começou: é Deus e é impossível resistir. Assim
foi implantada a fé e assim tem que ser restaurada."
Os séculos XVI e
XVII foram tempos difíceis para a Igreja na Inglaterra. Em 1534, Henrique VIII
se autonomeou Chefe Supremo da Igreja na Inglaterra e declarou réu de morte a
quem não reconhecer essa autoridade. Ao ano seguinte, foram decapitados dois
dos mais proeminentes opositores ao Ato de Supremacia: São John Fisher e São
Thomas More. Os mosteiros, conventos e confrarias foram dissolvidos. Uma
implacável perseguição se desatou contra os que permaneciam fiéis ao Papa.
Foi nessas
circunstâncias históricas que nasceu em Londres, no dia 25 de janeiro de 1540,
Edmundo Campion. Filho de pais abastados, o pequeno Edmundo era dotado de
inteligência ímpar e de grande facilidade para o estudo das letras, o que fazia
abrir-se diante dele um futuro brilhante. Inebriado pelas possibilidades
de uma brilhante carreira, deixou-se levar pelos acontecimentos e prestou o
Juramento de Supremacia em 1564, reconhecendo a rainha como governadora suprema
da Igreja na Inglaterra. Quatro anos mais tarde, recebeu das mãos do bispo
anglicano de Gloucester a ordenação diaconal.
Entrementes, o
futuro mártir dedicara- se aos estudos de filosofia aristotélica, de teologia
natural e dos Santos Padres, e não tardou a tomar consciência de sua falta.
Profundamente perturbado pelos remorsos, procurou um sacerdote católico, fez
uma boa confissão e assumiu publicamente sua condição de filho da Igreja.
Tinha clara noção de que sua atitude o obrigaria a abandonar a carreira
acadêmica, mas não hesitou em fazer este sacrifício. Também não ignorava que,
se permanecesse na Inglaterra nessas circunstâncias, estaria exposto a grandes
riscos. Por isso deixou Oxford e mudou-se em 1569 para Dublin.
Dois anos depois, voltou
à Inglaterra com o nome de Mr. Patrick e disfarçado de lacaio. Chegou a Londres
a tempo de testemunhar o juízo de um dos primeiros mártires de Oxford.
Percebeu, então, o quanto a Santa Igreja em sua nação necessitava de almas
dispostas a uma doação total, para sustentar na Fé os católicos e manter o
estandarte da catolicidade erguido naquela terra.
Este fato despertou em sua alma a vocação ao sacerdócio, com a disposição de
sacrificar tudo, inclusive a vida, se preciso fosse, em defesa da Igreja de
Cristo. O martírio passou a fazer parte de suas cogitações e de seu futuro.
Após muitas
peripécias, conseguiu chegar ao seminário de Douai. Neste seminário, que foi
ponto de partida para muitos santos e mártires, ele estudou Teologia, Exegese e
Divindade. A cópia da Suma Teológica usada por Campion em seus estudos existe
até hoje, mostrando as anotações por ele feitas à margem do argumento de São
Tomás sobre o "batismo de sangue", isto é, o martírio.
Martírio parecia ser o único tema de conversa no seminário de Douai, naquela
época. Todos se julgavam indignos de tão grande privilégio, mas contavam com o
auxílio da graça. Convictos da realidade expressa na famosa frase de
Tertuliano: "O sangue dos mártires é semente de cristãos", estavam
realmente dispostos a tudo.
Santo Edmundo
permaneceu aí nove anos e recebeu as ordens menores e o subdiaconato. Mas tinha
o coração sempre atormentado por ter prestado o Juramento de
Supremacia. Partiu então para Roma, como peregrino, e solicitou ingresso
na Companhia de Jesus.
Começou para Santo
Edmundo uma fase de intensas atividades de apostolado. Era constantemente
chamado para pregar e atender Confissões nas cidades próximas, e não deixava de
dar assistência aos fiéis nos hospitais e nas prisões.
Um dia, recebeu uma carta do Cardeal Allen, comunicando-lhe que havia
organizado uma incursão de missionários na Inglaterra e que ele, padre Edmundo,
fazia parte do grupo. "O Geral acedeu às nossas súplicas; o Papa,
verdadeiro pai de nosso país, consentiu; e Deus nos permitiu que nosso querido
Campion, com seus dotes extraordinários de sabedoria e graça, nos fosse afinal
restituído". Aproximava-se o almejado martírio... Seus companheiros do
Colégio de Praga deram-lhe um pergaminho com a profética inscrição: "Padre Edmundo Campion, mártir".
Em 18 de abril de
1580, partiu de Roma, com a bênção do Papa Gregório XIII, uma pequena caravana
de missionários, entre eles três jesuítas: padre Robert Persons, superior,
padre Edmundo Campion e o irmão Ralph Emerson. Receberam estes, também, a
bênção de São Felipe Neri, no Oratório, e os incentivos de São Carlos Borromeu
em Milão, por onde passaram.
Sua missão era puramente espiritual: procurar as ovelhas perdidas, recuperar os
católicos que vacilavam ou contemporizavam sob o regime persecutório, afervorar
as almas fiéis. Jamais poderiam imiscuir-se em problemas políticos, menos ainda
participar de confabulações, ou mesmo simples conversas, contrárias à rainha.
Não foi sem grandes riscos e dificuldades que conseguiram cruzar o Canal da
Mancha e entrar disfarçados em Dover, pois espiões ingleses em Roma haviam
enviado notícias da sua partida, e em toda a Inglaterra a força policial estava
mobilizada para impedir a entrada desses "fora da lei" em seu
território.
Os católicos ingleses, animados pela chegada dos sacerdotes, encarregaram- se
de hospedá-los e dar-lhes condições de exercer seu ministério apostólico.
Puderam eles, assim, durante mais de um ano, desempenhar suas funções
sacerdotais, sempre em situação de risco. Disfarces, nomes falsos, precários
esconderijos, apreensões nos momentos de buscas policiais, tudo isso fazia
parte da rotina dos heroicos missionários.
Refugiado em York,
padre Campion escreveu, em latim, sua mais famosa obra: Decem Rationes (As dez
razões para ser católico), logo divulgada por todo o país. No dia 29 de junho
de 1581, apareceram sobre os bancos da igreja de Santa Maria de Oxford 400
exemplares dessa obra, lá deixados por uma mão desconhecida...
Em resposta a essa
audaciosa iniciativa dos missionários, a rainha ofereceu grande soma pela
captura deles, sobretudo do padre Campion. Em 16 de julho, festa da Virgem do
Carmo, ele e o irmão Emerson estavam em uma casa de Lyford Grange, para
ministrarem os Sacramentos. Disfarçado entre os fiéis, entrou lá um espião,
chamado George Eliot. Tal qual Judas o Infame, saiu logo depois de receber a
Sagrada Comunhão, para denunciar os missionários a quem lhe pagava o salário de
seu vil ofício.
Não tardaram a chegar os agentes do governo, que vasculharam a casa e prenderam
os ministros de Deus. Amarrados aos cavalos e cavalgando de costas, foram
conduzidos a Londres, onde entraram sob manifestações de escárnio. No chapéu do
padre Edmundo estava afixada uma inscrição: "Campion, o jesuíta
sedicioso".
Num ridículo
julgamento realizado em Westminster, no dia 20 de novembro, é decretada a
sentença de morte na forca, seguida de estripação e esquartejamento. Santo
Edmundo e seus companheiros condenados, o padre Sherwin e o também jesuíta
Briant, acolheram-na com o cântico jubiloso do Te Deum laudamus e de um
versículo do salmo 117: "Este é o
dia que o Senhor fez: seja para nós dia de alegria e felicidade" (v. 24).
George Eliot, o
delator, procurou o santo missionário no calabouço para pedir-lhe perdão. E foi
perdoado imediatamente.
Caía uma chuva fina
e fria sobre Londres, na manhã de 1º de dezembro de 1581. Os três condenados
foram conduzidos ao patíbulo amarrados numa esteira de vime arrastada por
cavalos. Ao passar o arco de Newgate, Santo Edmundo conseguiu erguer a cabeça o
suficiente para saudar uma imagem de Nossa Senhora que ali se encontrava em seu
nicho.
Chegando a Tyburn, onde estavam levantadas as forcas, Campion subiu com toda a
firmeza que lhe permitiam seus membros deslocados pelas torturas. Ouviu-se um
murmúrio de admiração entre espectadores, seguido de um longo silêncio. Começou
ali uma nova colheita de conversões.
Já com a corda colocada no pescoço, o padre Campion foi pela última vez
interrogado por um conselheiro da rainha, que lhe exigiu uma confissão pública
de suas "traições". A História
registra suas derradeiras palavras: "Se ser católico é ser traidor, me
confesso como tal. Mas se não, tomo a Deus - ante cujo Tribunal vou agora
apresentar-me - como testemunha de que em nada ofendi a rainha, nem a Pátria,
nem qualquer pessoa, para merecer o título ou a morte como traidor".
Rezou por fim o
Pai-Nosso e a Ave Maria, e pediu aos católicos presentes que rezassem o Credo
enquanto ele expirava. Entregou, assim, sua alma ao Criador, como mártir da
fidelidade à Cátedra de Pedro.