quinta-feira, 2 de março de 2017

02 de março - Santa Inês de Praga


Inês (Anezka) de Praga, pertencia à família real da Boêmia. Foi uma das grandes figuras do mundo eslavo, e a mais destacada propagadora da Ordem de Santa Clara na sua pátria. Com sua paixão intensa e fiel pela pobreza, é uma das testemunhas mais autênticas do carisma franciscano e sua figura provocou sempre um grande interesse, sobretudo em sua terra de origem.

Era filha do rei Otocar I da Boêmia e de Constância da Hungria; nasceu em Praga em 1211. Conforme um costume corrente na época medieval entre as famílias nobres, aos três anos de idade foi prometida em casamento a Boleslau, filho de Henrique, rei da Silésia; foi educada por algum tempo no mosteiro de Santa Edviges, de modo especial para fazer-se santa. Com a morte prematura do futuro esposo, quando ela contava apenas nove anos, em 1220, retornou à corte paterna e foi-lhe contratado matrimônio com Henrique VII, filho do Imperador Frederico II da Alemanha (1215-1250), que residia na corte da Áustria, para onde Inês foi transferida. Henrique, no entanto, faltou ao pacto e decidiu contrair matrimônio com Margarida, filha do arquiduque Leopoldo da Áustria. Inês voltou à Boêmia e convenceu o pai de não guerrear contra Leopoldo da Áustria.
Assim, sucederam-se os pretendentes, entre os quais Henrique II da Inglaterra e ainda mesmo o próprio Frederico II da Alemanha, depois que ficou viúvo. Ele era o mais insistente dos pretendentes, chegando às vezes a abordá-la para pedi-la em casamento. Como Inês percebeu que apenas suas palavras não seriam suficientes, passou a entregar-se às suas orações com mais fervor, e provar a ele e a todos que a desejassem desviá-la do seu caminho que Deus era o seu maior desejo.
Mas eram tantos os que vinham interceder a favor do Imperador que Inês viu-se obrigada a escrever ao Papa Gregório IX para que intercedesse por ela e a ajudasse a livrar-se desse tormento. O Papa ficou admirado com a tenacidade e a fé de Santa Inês e enviou um de seus mais hábeis assessores para pessoalmente defender Inês, desencorajando o Imperador apaixonado. A firmeza com que o religioso e Santa Inês explicaram o que significava consagrar-se a Deus finalmente convenceram a Frederico II a renunciar o seu amor de homem, e ele tornou-se inclusive uma pessoa de fé inabalável.
Santa Inês pode então ficar livre para abraçar a sua verdadeira vocação.


A partir de 1225 os Frades Menores estabelecidos em Praga sob os cuidados de Inês e da família real, transmitem as notícias sobre as novas formas de vida religiosa iniciadas por Francisco e Clara na Itália. Logo a princesa sentiu-se profundamente atraída pelo movimento franciscano e clariano e tornou-se fecunda batalhadora da vida evangélica. Com suas posses fez construir uma igreja e um convento para os Frades Menores em Praga.
Depois da morte do pai, mandou edificar um hospital para os enfermos pobres, dedicado a São Francisco. Este hospital foi entregue por Inês à fraternidade dos Hospitaleiros, que se tornou uma verdadeira Ordem religiosa masculina, com o nome de Crucíferos da Estrela Vermelha, aprovados por Gregório IX.

Os documentos lembram a princesa Inês como protetora e benfeitora da obra. Os Crucíferos tinham como ideal evangélico “estar a serviço” e escolheram viver sob a Regra de Santo Agostinho, colocando-se sob a proteção da princesa e de toda a família real de Praga.

Depois de conhecer os Frades Menores e de ter construído a igreja e o convento de São Francisco para os Frades Menores, mandou construir junto a estes um mosteiro para as Irmãs Pobres, no qual ela mesma pretendia ingressar. A finalização dos trabalhos se deve ao rei Venceslau I, irmão de Inês, que assumira o reinado após a morte do pai. Neste mosteiro a princesa Inês organizou a vida religiosa, solicitando um grupo de irmãs diretamente do Mosteiro de São Damião de Assis.

Com estas clarissas e mais sete jovens da nobreza boêmia, iniciou a vida religiosa na festa de Pentecostes de 1234 no Mosteiro das Pobres Damas de São Damião de Praga, vivendo reclusa até sua morte em 1282. A seu exemplo, muitas outras mulheres, jovens e viúvas da nobreza boêmia, polonesa e morávia começaram a construir mosteiros e a ingressar neles.
O ideal clariano de contemplação foi semeado naquelas regiões, tanto pelas clarissas como pelos frades, destacando muitas mulheres com os títulos de bem-aventurada e santa.

A partir de então, foi necessário construir um novo mosteiro, mais amplo, para acolher o grande número de vocações. Para este mosteiro, intitulado São Francisco, transferiram-se as irmãs, com a sua abadessa Inês. O crescimento da comunidade havia sido fabuloso: as irmãs já chegavam a cem neste período e continuaram aumentando.

Ela gostava de cuidar dos pobres e remendava pessoalmente as roupas dos leprosos e cuidava deles, e milagrosamente, nunca contraiu a terrível doença.
Apesar de nunca terem se encontrado, Santa Clara de Assis e ela trocaram extensas cartas durante duas décadas e várias dessas cartas ainda existem até hoje, e provam uma sabedora fora do comum no entendimento da Fé e de Jesus.

Faleceu em 6 de março de 1282 no Convento São Salvador, em Praga, de causas naturais.

Beatificada em 1874 pelo Papa Pio IX e canonizada em 12 de novembro de 1989 pelo Papa João Paulo II.
Seu túmulo logo se tornou um local de peregrinação e vários milagres foram atribuídos a sua intercessão
 

quarta-feira, 1 de março de 2017

01 de março - Santa Eudoxia

Santa Eudóxia nasceu na Samaria, Palestina, mas vivia na cidade de Heliópolis na Fenícia, atual Líbano.

Era uma jovem de extraordinária beleza, cujo ímpeto pagão a fez abandonar a família para levar uma vida de libertina. Teve muitos noivos e admiradores ricos, que vinham de outros países à sua procura. Dessa maneira, enriqueceu.

Certa vez, pernoitou na casa de um vizinho seu, um velho monge, chamado Germano. De madrugada, o monge levantou para fazer suas orações em voz alta, como de hábito, e ler o Evangelho, entoando cânticos ao Senhor. A leitura foi sobre a nova vinda do Redentor e o juízo final. Eudóxia, acordou com aquela voz, que vinha pela parede, da casa ao lado, e ficou escutando. O que ouviu, a impressionou e perturbou o seu espírito.

Bem cedo, foi procurar o homem, que ouvira rezando durante a noite e escutou por muito tempo a orientação do velho monge Germano, sentindo sua alma se encher com a alegria e o amor de Cristo. Ficou isolada com o monge durante vários dias, só ouvindo suas palavras e rezando.

Ela teve uma visão de são Miguel Arcanjo, presenciada pelo monge, confirmando assim seu arrependimento e conversão

O monge contou ao bispo de Heliópolis, Teodotos, que batizou Eudóxia. Depois, ela doou os seus bens aos pobres, libertou seus escravos e ingressou no convento feminino, próximo da cidade, de onde só saiu para morrer.

Eudóxia viveu muitos anos, consagrando a sua vida inteiramente ao jejum, orações e purificação da alma. Abraçou a fé com tanta certeza que em pouco tempo alcançou a maturidade espiritual, recebendo muitos dons de prodígios.

A tradição diz, que são Miguel Arcanjo, deixou seu dragão para guardar o convento onde Eudóxia estava. A sua fama e os seus prodígios eram tantos que o prefeito pagão Aureliano, mandou alguns soldados ao convento para prendê-la.

Mas, foram impedidos pelo dragão que expelia fogo pela boca à medida que tentavam se aproximar do convento. Depois de três dias desistiram, voltaram e contaram tudo ao prefeito.

Irritado, mandou outro grupo liderado por seu filho. Porém o dragão assustou os cavalos e o jovem caiu e morreu na hora.
O prefeito consternado decidiu mandar um tribuno pedir ajuda à santa prodigiosa. Eudóxia lhe respondeu com uma carta, que ao ser colocada em contato com o jovem, ele ressuscitou.

Aureliano se converteu e com ele toda a família e os seus magistrados. A filha Gelásia foi envida ao convento, o jovem ressuscitado se tornou diácono e mais tarde, o bispo de Heliópolis.
Eudóxia, chegou a ser a superiora do convento. Nesta função, ela concentrou suas forças para auxiliar os pobres, curar os enfermos com seus dons pelas orações, convertendo os pagãos, rezando e jejuando.

Na época do imperador Trajano, ela foi denunciada pela disseminação da fé cristã. Acusada de bruxaria e fraude, sem julgamento Eudóxia foi decapitada em 01 de março de 114. 

O seu culto se manteve ao longo dos séculos e foi mantido pela Igreja, no dia de sua morte.


01 de março - Mensagem do Papa Francisco para a Quaresma de 2017



A Palavra é um dom. O outro é um dom

Amados irmãos e irmãs!

A Quaresma é um novo começo, uma estrada que leva a um destino seguro: a Páscoa de Ressurreição, a vitória de Cristo sobre a morte. E este tempo não cessa de nos dirigir um forte convite à conversão: o cristão é chamado a voltar para Deus «de todo o coração», não se contentando com uma vida medíocre, mas crescendo na amizade do Senhor. Jesus é o amigo fiel que nunca nos abandona, pois, mesmo quando pecamos, espera pacientemente pelo nosso regresso a Ele e, com esta espera, manifesta a sua vontade de perdão.

A Quaresma é o momento favorável para intensificarmos a vida espiritual através dos meios santos que a Igreja nos propõe: o jejum, a oração e a esmola. Na base de tudo isto, porém, está a Palavra de Deus, que somos convidados a ouvir e meditar com maior assiduidade neste tempo. Aqui queria deter-me, em particular, na parábola do homem rico e do pobre Lázaro. Deixemo-nos inspirar por esta página tão significativa, que nos dá a chave para compreender como temos de agir para alcançarmos a verdadeira felicidade e a vida eterna, incitando-nos a uma sincera conversão.

1. O outro é um dom
A parábola inicia com a apresentação dos dois personagens principais, mas quem aparece descrito de forma mais detalhada é o pobre: encontra-se numa condição desesperada e sem forças para se solevar, jaz à porta do rico na esperança de comer as migalhas que caem da mesa dele, tem o corpo coberto de chagas, que os cães vêm lamber. Enfim, o quadro é sombrio, com o homem degradado e humilhado.

A cena revela-se ainda mais dramática, quando se considera que o pobre se chama Lázaro, um nome muito promissor, pois significa, literalmente, «Deus ajuda». Não se trata duma pessoa anônima; antes, tem traços muito concretos e aparece como um indivíduo a quem podemos atribuir uma história pessoal. Enquanto Lázaro é como que invisível para o rico, a nossos olhos aparece como um ser conhecido e quase de família, torna-se um rosto; e, como tal, é um dom, uma riqueza inestimável, um ser querido, amado, recordado por Deus, apesar de a sua condição concreta ser a duma escória humana.

Lázaro ensina-nos que o outro é um dom. A justa relação com as pessoas consiste em reconhecer, com gratidão, o seu valor. O próprio pobre à porta do rico não é um empecilho fastidioso, mas um apelo a converter-se e mudar de vida. O primeiro convite que nos faz esta parábola é o de abrir a porta do nosso coração ao outro, porque cada pessoa é um dom, seja ela o nosso vizinho ou o pobre desconhecido. A Quaresma é um tempo propício para abrir a porta a cada necessitado e nele reconhecer o rosto de Cristo. Cada um de nós encontra-o no próprio caminho. Cada vida que se cruza conosco é um dom e merece aceitação, respeito, amor. A Palavra de Deus ajuda-nos a abrir os olhos para acolher a vida e amá-la, sobretudo quando é frágil. Mas, para se poder fazer isto, é necessário tomar a sério também aquilo que o Evangelho nos revela a propósito do homem rico.

2. O pecado cega-nos
A parábola põe em evidência, sem piedade, as contradições em que vive o rico. Este personagem, ao contrário do pobre Lázaro, não tem um nome, é qualificado apenas como «rico». A sua opulência manifesta-se nas roupas, de um luxo exagerado, que usa. De fato, a púrpura era muito apreciada, mais do que a prata e o ouro, e por isso se reservava para os deuses e os reis. O linho fino era um linho especial que ajudava a conferir à posição da pessoa um caráter quase sagrado. Assim, a riqueza deste homem é excessiva, inclusive porque exibida habitualmente: «Fazia todos os dias esplêndidos banquetes». Entrevê-se nele, dramaticamente, a corrupção do pecado, que se realiza em três momentos sucessivos: o amor ao dinheiro, a vaidade e a soberba.

O apóstolo Paulo diz que «a raiz de todos os males é a ganância do dinheiro». Esta é o motivo principal da corrupção e uma fonte de invejas, contendas e suspeitas. O dinheiro pode chegar a dominar-nos até ao ponto de se tornar um ídolo tirânico. Em vez de instrumento ao nosso dispor para fazer o bem e exercer a solidariedade com os outros, o dinheiro pode-nos subjugar, a nós e ao mundo inteiro, numa lógica egoísta que não deixa espaço ao amor e dificulta a paz.

Depois, a parábola mostra-nos que a ganância do rico fá-lo vaidoso. A sua personalidade vive de aparências, fazendo ver aos outros aquilo que se pode permitir. Mas a aparência serve de máscara para o seu vazio interior. A sua vida está prisioneira da exterioridade, da dimensão mais superficial e efêmera da existência.

O degrau mais baixo desta deterioração moral é a soberba. O homem veste-se como se fosse um rei, simula a posição dum deus, esquecendo-se que é um simples mortal. Para o homem corrompido pelo amor das riquezas, nada mais existe além do próprio eu e, por isso, as pessoas que o rodeiam não caiem sob a alçada do seu olhar. Assim o fruto do apego ao dinheiro é uma espécie de cegueira: o rico não vê o pobre esfomeado, chagado e prostrado na sua humilhação.

Olhando para esta figura, compreende-se por que motivo o Evangelho é tão claro ao condenar o amor ao dinheiro: «Ninguém pode servir a dois senhores: ou não gostará de um deles e estimará o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e ao dinheiro».

3. A Palavra é um dom
O Evangelho do homem rico e do pobre Lázaro ajuda a prepararmo-nos bem para a Páscoa que se aproxima. A liturgia de Quarta-Feira de Cinzas convida-nos a viver uma experiência semelhante à que faz de forma tão dramática o rico. Quando impõe as cinzas sobre a cabeça, o sacerdote repete estas palavras: «Lembra-te, homem, que és pó da terra e à terra hás de voltar». De fato, tanto o rico como o pobre morrem, e a parte principal da parábola desenrola-se no Além. Dum momento para o outro, os dois personagens descobrem que nós «nada trouxemos ao mundo e nada podemos levar dele».

Também o nosso olhar se abre para o Além, onde o rico tece um longo diálogo com Abraão, a quem trata por «pai», dando mostras de fazer parte do povo de Deus. Este detalhe torna ainda mais contraditória a sua vida, porque até agora nada se disse da sua relação com Deus. Com efeito, na sua vida, não havia lugar para Deus, sendo ele mesmo o seu único deus.

Só no meio dos tormentos do Além é que o rico reconhece Lázaro e queria que o pobre aliviasse os seus sofrimentos com um pouco de água. Os gestos solicitados a Lázaro são semelhantes aos que o rico poderia ter feito, mas nunca fez. Abraão, porém, explica-lhe: «Recebeste os teus bens na vida, enquanto Lázaro recebeu somente males. Agora, ele é consolado, enquanto tu és atormentado». No Além, restabelece-se uma certa equidade, e os males da vida são contrabalançados pelo bem.

Mas a parábola continua, apresentando uma mensagem para todos os cristãos. De fato o rico, que ainda tem irmãos vivos, pede a Abraão que mande Lázaro avisá-los; mas Abraão respondeu: «Têm Moisés e os Profetas; que os ouçam». E, à sucessiva objeção do rico, acrescenta: «Se não dão ouvidos a Moisés e aos Profetas, tão-pouco se deixarão convencer, se alguém ressuscitar dentre os mortos».

Deste modo se patenteia o verdadeiro problema do rico: a raiz dos seus males é não dar ouvidos à Palavra de Deus; isto levou-o a deixar de amar a Deus e, consequentemente, a desprezar o próximo. A Palavra de Deus é uma força viva, capaz de suscitar a conversão no coração dos homens e orientar de novo a pessoa para Deus. Fechar o coração ao dom de Deus que fala, tem como consequência fechar o coração ao dom do irmão.


Amados irmãos e irmãs, a Quaresma é o tempo favorável para nos renovarmos, encontrando Cristo vivo na sua Palavra, nos Sacramentos e no próximo. O Senhor – que, nos quarenta dias passados no deserto, venceu as ciladas do Tentador – indica-nos o caminho a seguir. Que o Espírito Santo nos guie na realização dum verdadeiro caminho de conversão, para redescobrirmos o dom da Palavra de Deus, sermos purificados do pecado que nos cega e servirmos Cristo presente nos irmãos necessitados. Encorajo todos os fiéis a expressar esta renovação espiritual, inclusive participando nas Campanhas de Quaresma que muitos organismos eclesiais, em várias partes do mundo, promovem para fazer crescer a cultura do encontro na única família humana. Rezemos uns pelos outros para que, participando na vitória de Cristo, saibamos abrir as nossas portas ao frágil e ao pobre. Então poderemos viver e testemunhar em plenitude a alegria da Páscoa.

FRANCISCO

01 de março - Quarta-feira de Cinzas


O Evangelho de hoje mostra os elementos da jornada espiritual da Quaresma : a oração, o jejum e a esmola (cf. Mt 6,1-6.16-18). 
Todos os três envolvem a necessidade de não ser dominado por coisas que aparecem: o que importa não é a aparência; e o valor da vida não depende da aprovação dos outros ou do sucesso, mas daquilo que temos dentro de nós.
O primeiro elemento é a oração. Ela é a força do cristão e de toda pessoa que crê. Na fraqueza e na fragilidade da nossa vida, podemos nos voltar para Deus, com a confiança de filhos, e entrar em comunhão com Ele. Diante de tantas feridas que nos fazem mal e poderiam endurecer o coração, somos chamados a mergulhar no mar da oração, que é o mar do amor sem limites de Deus, para desfrutar de sua ternura. A Quaresma é um tempo de oração, uma oração mais intensa, mais assídua, mais capaz de cuidar das necessidades dos irmãos, de interceder  junto a Deus por tantas situações de pobreza e sofrimento.
O segundo elemento qualificante do caminho quaresmal é o jejum. Devemos ter cuidado para não fazer um jejum formal ou que, na verdade, nos “sacia”, porque nos faz sentir justificados. O jejum faz sentido se, realmente, afeta a nossa segurança e também se consegue um benefício para os outros, se nos ajuda a crescer no espírito do Bom Samaritano, que se inclina sobre o seu irmão em necessidade e cuida dele. O jejum envolve a escolha de uma vida sóbria, que não desperdiça, que não descarta. O jejum ajuda-nos a treinar o coração na essencialidade na partilha. É um sinal de consciência e responsabilidade diante das injustiças, dos abusos, especialmente para com os pobres e os pequeninos, e é um sinal da confiança que depositamos em Deus e na Sua providência.
O terceiro elemento é a esmola: ela indica a gratuidade, porque a esmola é dada a alguém de quem não se pode esperar  nada em troca. A gratuidade deveria ser uma das características do cristão, que, consciente de ter recebido tudo de Deus livremente, isto é, sem qualquer mérito, aprende a dar aos outros gratuitamente. Hoje, muitas vezes, a gratuidade não faz parte da vida cotidiana, pois tudo é comprado e vendido. Tudo é cálculo e medição. A esmola ajuda-nos a viver a gratuidade do dom, que é a liberdade da obsessão pela posse, o medo de perder o que se tem, da tristeza daqueles que não querem compartilhar com os outros o seu próprio bem-estar.
Com seus apelos à conversão, a Quaresma, providencialmente, vem despertar-nos para sacudir-nos do torpor, do risco de avançar por inércia. A exortação que o Senhor nos faz, por meio do profeta Joel, é alta e clara: “Retornem para mim de todo o vosso coração” (Joel 2, 12).
Por que devemos voltar para Deus?
Porque algo está errado em nós, na sociedade, na Igreja. Nós precisamos de mudança, de uma transformação, precisamos nos converter! Mais uma vez, a Quaresma vem dirigir-nos um apelo profético para nos lembrar de que é possível realizar algo novo em  nós mesmos e ao nosso redor, simplesmente porque Deus é fiel, continua a ser cheio de bondade e misericórdia, e está sempre pronto a perdoar e recomeçar. Com esta confiança filial, coloquemo-nos a caminho!
Papa Francisco

01 de março - Tempo da Quaresma


“Durante o tempo da Quaresma, meus queridos irmãos, deveremos exercitar-nos em orações, jejuns e vigílias mais prolongados, a fim de podermos ungir as soleiras de nossas portas com o precioso  Sangue e escapar do exterminador.” 
Santo Atanásio  ano 329

A Quaresma é o tempo litúrgico de conversão, de reviver o nosso batismo, que a Igreja nos proporciona para preparar para a grande festa da Páscoa. É tempo para nos arrependermos de nossos pecados e de mudar de vida, correspondendo à graça de Deus que nos concede esse dom.

A Quaresma dura 40 dias: começa na Quarta-feira de Cinzas e termina na Quinta-feira Santa à tarde. Ao longo deste tempo fazemos a nossa parte para recuperar o ritmo e estilo de verdadeiros fiéis, que devemos viver como filhos de Deus.
Trata-se de um tempo privilegiado de conversão, combate espiritual, jejum, abstinência, esmola, sacrifício, oração e escuta da Palavra de Deus. A característica fundamental e indispensável da Quaresma é a conversão da vida velha para darmos passos na nova vida em Cristo! O número “quarenta” é bíblico e cheio de simbolismos: os quarenta dias do Dilúvio, os quarenta dias de Moisés no Monte Sinai, os quarenta anos de Israel no deserto, os quarenta dias do caminho de Elias até o Sinai e, sobretudo, os quarenta dias do Senhor Jesus no deserto, preparando sua vida pública, quando, após esses dias de jejum, é tentado pelo demônio. 

A cor litúrgica deste tempo é o roxo, que significa penitência. A espiritualidade da Quaresma aparece em seu caráter essencialmente cristocêntrico-pascal-batismal. Este tempo litúrgico é caminho de fé-conversão para Cristo, que se faz servo obediente ao Pai até a morte de cruz. 
Na Quarta-feira de Cinzas, quando iniciamos a Quaresma, o Evangelho nos indica alguns caminhos da espiritualidade quaresmal: a Oração, o Jejum e a Esmola.

Oração – neste tempo os cristãos se dedicam mais à oração. Uma boa prática é rezar a liturgia das horas, o terço, a via sacra, fazer a Lectio divina seja individualmente, seja em comunidade. Outra sugestão pode ser diariamente rezar um salmo após a leitura orante da Palavra de Deus, ou, para os mais generosos, rezar todo o saltério no decorrer dos quarenta dias. É costume também rezar a Via Sacra às sextas-feiras e a reza diária do Santo Rosário.

Jejum – na história da salvação é frequente o convite a jejuar. Já nas primeiras páginas da Sagrada Escritura o Senhor recomenda que o homem se abstenha de comer o fruto proibido: “Podes comer o fruto de todas as árvores do jardim; mas não comas o da árvore da ciência do bem e do mal, porque, no dia em que o comeres, certamente morrerás”. Dado que todos estamos entorpecidos pelo pecado e pelas suas consequências, o jejum é-nos oferecido como um meio para estarmos mais abertos à escuta da Palavra do Senhor.
O Jejum pode variar muito de acordo com cada pessoa, e cada um deve escolher sua prática penitencial para este tempo. Por exemplo: renunciar a um lanche diariamente, ou a uma sobremesa, não comer carne às quartas e sextas-feiras, e tantas outras possibilidades. Na Quarta-feira de Cinzas e na Sexta-feira Santa os cristãos praticam o jejum e a abstinência de carne: o jejum nos faz recordar que somos frágeis e que a vida que temos é um dom de Deus, que deve ser vivida em união com Ele. Os mais generosos podem jejuar todas as sextas-feiras da Quaresma. Mesmo durante o ano, existe a prática de, às sextas feiras, termos algum sinal penitencial.

Esmola - a Quaresma é tempo de mais um forte empenho de caridade para com os irmãos. Não há verdadeira conversão a Deus sem conversão ao amor fraterno (cf.1 Jo 4,20-21). A privação à qual o cristão é chamado durante a Quaresma, inclusive através do jejum corporal, exige que seja sentida como exigência da fé para tornar-se operante na caridade para com os irmãos. O jejum não tem significado em si mesmo, mas deve ser um sinal de toda uma atitude de justiça e caridade (cf. Is 1,16-17;58,6-7). De uma maneira muito especial, lembramos que no Domingo de Ramos temos a “coleta da solidariedade” como consequência às penitências quaresmais.

Portanto, Quaresma é um tempo propício para lutarmos contra os nossos defeitos mais arraigados. Podemos aproveitar esta época litúrgica para crescer em conhecimento próprio, fazendo um exame mais aprofundado da nossa vida para descobrir o que nos aproxima ou afasta de Deus. Depois, marcaremos metas palpáveis de melhora e nos esforçaremos por atingi-las.

Se alguma vez falharmos, recorreremos com humildade e contrição ao sacramento da Penitência, e recomeçaremos com alegria. Aliás, essa é uma prática indispensável na Quaresma: a celebração penitencial ou da reconciliação, se possível muitas vezes durante este tempo. Se fizermos a nossa parte, que é lutar sempre confiantes na ajuda de Deus, Ele não deixará de nos conceder as graças necessárias para uma verdadeira conversão. E assim chegaremos renovados para a Páscoa da Ressurreição, vivenciando a nossa vida batismal.