sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

06 de janeiro - Santa Rafaela Maria do Sagrado Coração

O nosso coração não deve limitar-se a um número reduzido de pessoas, mas abrir-se ao mundo inteiro.”
Juntamente com sua irmã, fundou a Congregação das Escravas do Sagrado Coração de Jesus. Dedicadas à adoração ao Santíssimo Sacramento e ao cuidado das crianças. 
Décima de treze filhos, Rafaela Maria Porras y Ayllón  nasceu no dia 1º de março de 1850, filha de Ildefonso Porras e Rafaela Ayllón, em Pedro Abad, província de Córdoba (Espanha). Dos seus pais recebeu uma educação cristã, especialmente eficaz porque baseada no exemplo.

Ela tinha quatro anos quando seu pai, Presidente da Câmara de Pedro Abad, tombou vítima de sua religiosidade e de seu heroísmo: ao cuidar dos doentes de cólera, ele próprio contraiu a doença. Sua viúva, mulher forte, passou a dirigir a família. Dedicou especial atenção na educação das "duas perolazinhas", como eram chamadas as duas únicas meninas, Rafaela e Dolores, esta última quatro anos mais velha que a irmã.

 A educação recebida de sua mãe, uma mistura de solícita ternura e de suave exigência, fez amadurecer nela os melhores traços do seu temperamento. Ao chegar à adolescência, era uma criança precocemente reflexiva, doce e tenaz ao mesmo tempo, senhora de si, sempre disposta a ceder nos seus gostos perante os gostos dos outros.

Rafaela e a irmã, jovens finas, cultas, bem dotadas, podiam frequentar a melhor sociedade de Córdoba e Madri. Mas Rafaela, de joelhos diante do altar de São João dos Cavaleiros, em Córdoba, consagrou-se a Nosso Senhor com um voto de castidade perpétua aos quinze anos de idade. Isto aconteceu no dia da Anunciação de Nossa Senhora, a Escrava do Senhor. Mais tarde ela diria: "É tão formosa a flor da pureza!" Por uma coincidência providencial, a propriedade daquela igreja seria mais tarde entregue às Escravas do Sagrado Coração de Jesus, obra que Rafaela fundaria.

A morte da sua mãe, quando ela tinha dezenove anos, foi outro momento forte na reta trajetória da sua entrega a Deus. A partir de então se dedicou completamente aos mais carentes e não havia na povoação uma necessidade ou dor que ela não consolasse. Em tudo isto era acompanhada por sua irmã Dolores, que iria ser também sua companheira inseparável na fundação do Instituto das Escravas do Sagrado Coração de Jesus.

Por caminhos inesperados, as duas irmãs viram-se convertidas em fundadoras. A 14 de abril de 1877 estabelecia-se em Madri a primeira comunidade das Escravas do Sagrado Coração de Jesus, dedicadas a adorar o Santíssimo Sacramento e a educar crianças e jovens, principalmente as pobres. Aprovadas pelo Cardeal Moreno, das dezoito noviças que haviam começado aquela aventura "nenhuma se perdera".

Testemunhas de Deus num mundo desgarrado pela dor de frequentes guerras, as primeiras Escravas trataram de dar a conhecer o amor de Cristo, amor até à morte, expressivamente simbolizado no seu Coração aberto. Rafaela Maria e a sua irmã Dolores fizeram disto a missão do Instituto, que impulsionaram com a sua atividade e deram vida com o seu espírito. Santa Rafaela Maria foi a encarnação do ideal de uma Escrava. O nome que adotou na vida religiosa – Maria do Sagrado Coração de Jesus – exprime a sua atitude constante de resposta ao Amor.

Em 29 de janeiro de 1887, o papa Leão XIII aprovava definitivamente o Instituto e, temporariamente, as Constituições. As Escravas espalharam-se rapidamente, e Rafaela dirigiu-as, com Maria del Pilar, nome que sua irmã adotara, como ecônoma geral, até 1893.

Neste ano, Irmã Maria del Pilar convenceu-se que a irmã errava muito na administração econômica, fez campanha e as Religiosas Conselheiras declararam a Madre Rafaela incapaz de governar a Congregação. Irmã Maria del Pilar substituiu-a no cargo; teve, deste modo, o gosto de ser Superiora geral durante dez anos (1893-1903).

Estes dez anos e os 22 seguintes passou-os Rafaela a um canto, esquecida e desprezada, mas feliz por não ter senão que dar bom exemplo e entregar-se continuamente à oração e à humildade. Sem amargura de coração, sem críticas, sem o menor ressentimento, vendo a mão invisível de Deus que com infinito amor modelava o seu barro, aceitou para o resto da sua vida – tinha quarenta e três anos – o martírio do “não fazer”. 

Entregue à oração e às simples tarefas domésticas, nas quais soube traduzir o seu imenso desejo de ajudar o Instituto e a Igreja, Santa Rafaela Maria pode ver o crescimento daquela obra nascida do seu amor e fecundada pela sua dor. Sempre serena, acreditou contra toda a esperança no Deus fiel que levaria a feliz término a empresa que por meio dela e de sua irmã tinha começado.

Naqueles anos de isolamento, só teve o consolo de uma viagem a Loreto e Assis, e outra a Espanha. Por todas as casas que visitou deixou uma esteira de edificação. As religiosas mais jovens podiam comprovar o que tinham ouvido as mais velhas comentarem sobre a fundadora. Ela nunca mais exerceu a autoridade no Instituto, mas edificava a todas o verem-na, já idosa, ajudando a uma postulante recém-chegada a pôr as mesas.
 O prolongado e doloroso holocausto estava para se consumar. Devido às longas horas que passava ajoelhada diante do Santíssimo Sacramento, centro de sua vida, contraiu uma doença no joelho direito que pouco a pouco a foi consumindo em meio a dores intensas. Os últimos oito meses que passou retida em seu leito foram de acerbo sofrimento. "Aceitai todas as coisas como se viessem das mãos de Deus", repetia ela.

Corpo incorrupto de Santa Rafaela
No dia 6 de janeiro de 1925, Santa Rafaela morre santamente na casa de Roma, onde permanecera os últimos anos de sua vida. Depois de seu falecimento as autoridades eclesiásticas compreenderam o que se tinha passado; foi aberto o processo de sua beatificação.

Quase ao final da 2ª Guerra Mundial, um bombardeio americano atingiu o cemitério onde Madre Rafaela estava sepultada. Seu túmulo milagrosamente foi preservado e, ao fazerem a exumação de seus despojos, encontraram seu corpo incorrupto e flexível como se ela dormisse.
Pio XII beatificou-a em 1952 e Paulo VI canonizou-a no dia 23 de janeiro de 1977.


quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

05 de janeiro - São Carlos de Santo André Houben

"O amor de Deus foi derramado nos nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado". Na verdade, no caso do sacerdote passionista, Carlos de Santo André Houben, observamos como este amor foi prodigalizado numa vida totalmente dedicada ao cuidado das almas. Ao longo dos numerosos anos de ministério sacerdotal na Inglaterra e na Irlanda, o povo o procurava para obter conselhos sábios, a sua solicitude compassiva e o seu toque taumatúrgico. Na doença e no sofrimento reconheceu o rosto de Cristo crucificado, a cuja devoção tinha dedicado toda a sua vida. Hauriu em abundância das torrentes de água viva que brotava do lado trespassado, e com a força do Espírito deu testemunho perante o mundo do amor do Pai. Durante as exéquias deste sacerdote muito amado, afetuosamente chamado Padre Carlos de Mount Argus, o seu Superior observou: "O povo já o declarou santo".

Papa Bento XVI – Homilia de Canonização -  03 de junho de 2007

Os autênticos santos são imitadores de Cristo e, são Carlos Houben, foi um desses. Assim nos diz Pierluigi de Eugenio: “passou a vida abençoando, curando e perdoando. Sempre disposto e amável. Pobre entre os pobres, fez de sua vida um dom para os que sofrem. Todo de Deus, todo do próximo. Os necessitados de alma e de corpo não o deixavam repousar nem um momento. Profundamente dedicado à família religiosa e à pátria, trabalhou por muitíssimos anos a fio por uma e por outra, encontrando nos que sofrem a seus próprios irmãos e na terra da Irlanda sua própria pátria”.
João André nasce em Munstergeleene, Holanda, em 11 de dezembro de 1829, sendo o quarto de dez filhos em uma família de posses. Cresce em inteligência, idade e graça. Seu irmão José dirá dele: “conhecia somente dois caminhos: o da igreja e o da escola”. Cedo nasce no coração do jovem o desejo de ser sacerdote. Conhece os Passionistas, há pouco tempo chegados à Holanda trazidos pelo padre Domingo Barberi e, aos 24 anos, no dia 05 de novembro de 1845, entre no noviciado em Ere, Bélgica, e veste o hábito adotando o nome de “Carlos”.

Durante o noviciado foi irrepreensível. Este é o testemunho de um de seus companheiros: “me sentia muito edificado diante de sua grande santidade. Era exemplar, cheio de fé e de piedade, pontual, observante das regras, simples, amável e caráter doce. Sua piedade e sua natural alegria lhe ganhavam o afeto de todos”. Em 21 de dezembro de 1850 é ordenado sacerdote. Em 1852 é enviado à Inglaterra onde estavam os Passionistas há cerca de 10 anos. Carlos não regressará mais à Holanda, nem voltará a ver mais seus familiares. Sua mãe havia morrido há cerca de oito anos e seu pai há dois.

Passará mais de quarenta anos de sua vida nas ilhas britânicas. Se estabelece primeiro em Aston, na Inglaterra, onde se dedica aos imigrantes irlandeses que levam a cabo um duro trabalho nas minas. Esta experiência será útil em sua próxima permanência na Irlanda. Se doa completamente a eles, se interessa por seus problemas e por sua saúde. Conforta-os, ajuda-os, cuida de suas doenças físicas e morais, enquanto continua trabalhando a favor da congregação e da Igreja.

Em 1857 o transferem para a Irlanda, em Dublin/Mount Argus, aonde os Passionistas chegaram havia pouco tempo. Devem ser construídos o convento e a igreja. O padre Carlos se revela providencial. O povo irlandês que o havia visto a seu lado com tanta solicitude se mostra generoso. Constrói-se um convento e uma bela igreja dedicada a são Paulo da Cruz. Padre Carlos, sem sabê-lo, prepara seu próprio santuário.

Carlos não será nunca um grande pregador, sobretudo pela dificuldade com a língua, porém, passa horas e horas no confessionário, assiste aos moribundos, abençoa os enfermos com a relíquia de são Paulo da Cruz. Acompanham a benção belas e emocionantes orações compostas por ele mesmo. Recebe a fama de taumaturgo. Cada dia, cerca de trezentas pessoas, provenientes de todas as partes da Irlanda, da Inglaterra, da Escócia e até da América acorrem a ele atraídos pela fama de sua santidade. Encontram um coração compassivo, disponível e terno. Médicos e enfermeiros de Dublin, frente a casos desesperados, aconselhavam chamar ao padre Carlos e Carlos acudia às casas e aos hospitais, levando quase sempre o dom de uma cura inesperada e sempre uma sensação de serenidade. Com amor preparava os moribundos para o grande passo, ajoelhado em oração, ao lado de seus leitos. Para fazê-lo descansar um pouco, os superiores várias vezes o mudam de convento, porém, depois o fazem regressar a Dublin.

Na comunidade era exemplar, cheio de fé e de piedade, simples e afável, de uma amabilidade angelical. Não obstante as ocupações, passa largo tempo em adoração diante do tabernáculo. Diversas vezes o encontram em êxtase, especialmente durante a Santa Missa. Às vezes o acólito se vê obrigado a sacudi-lo para que prossiga a celebração.
Nos últimos anos de sua vida sofre muito por causa de uma gangrena em uma perna e outros males. Suporta a enfermidade com paciência continuando a desenvolver seu apostolado. Cada dia continua a subir e descer uma escadaria de 59 degraus, dezenas de vezes ao dia, para receber as pessoas que vem a ele.

Morre serenamente em 05 de janeiro de 1993. Por cinco dias, antes da sepultura, recebe honras fúnebres dignas de um rei, com gente proveniente de toda a Irlanda.
Foi beatificado por João Paulo II em 16 de outubro de 1988, fazendo oficial reconhecimento da santidade do padre Carlos que já em vida era chamado por todos de “o santo de Mount Argus” e foi canonizado por Bento XVII em 03 de junho de 2007.


quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

04 de janeiro - Santa Elizabeth Ann Seton

Do seio da aristocracia anglicana norte-americana, a Providência chama uma mulher para mudar os rumos da educação nos Estados Unidos. Ela funda uma congregação sobre a rocha inabalável da Eucaristia, à sombra da qual florescem os carismas e se solidificam as obras de Deus. Elizabeth Ann Seton foi colhida numa situação muito particular. De religião anglicana, casada com um rico comerciante e tendo cinco filhos, nada parecia indicar os caminhos para os quais a Providência ia chamá-la. Mas de sua correspondência à graça dependeriam milhares de almas e, em certo sentido, um país inteiro. E ela disse: "sim!"

Elizabeth Ann Bayley nasceu em 28 de agosto de 1774. O seu pai, Richard Bayley, era um cirurgião anglicano de grande reputação educado na Inglaterra; foi o primeiro professor de anatomia do Columbia College. A mãe de Elizabeth, Catarina Charlton, era filha de um ministro episcopaliano da Igreja de Santo André, em Staten Island. Tiveram três filhos: Maria Madalena, Elizabeth Ana e Catarina Josefina, segundo a ordem de nascimento.

Quando Elizabeth tinha dois anos de idade a declaração da independência dos EUA foi assinada e durante sua infância a Revolução Americana estourou. A guerra não lhe tinha custado grande perda financeira e nos dias de juventude, Elizabeth vivia num grande conforto.
Os sofrimentos de Elizabeth começaram quando ela perdeu a sua mãe, quando ela não tinha ainda três anos de idade. Com as filhas para cuidar e fazendo o papel de pai e de mãe por um ano, Dr. Bayley casou-se com Carlota Amélia Barclay. Do novo matrimônio nasceram mais sete filhos. A pequena enteada era desprezada pela madrasta, o que lhe fazia sentir sobremaneira a falta da mãe. Também o pai, absorvido por serviços e pesquisas médicas, não conseguia retribuir os carinhosos sentimentos de sua afetuosa filha.
Por tais circunstâncias, Elizabeth, aos oito anos de idade, foi enviada à fazenda de um tio paterno, para aí viver em companhia de seus primos. Esse período passado no ambiente tranquilo do campo determinou a formação de seu caráter contemplativo e decidido.

Aos dezesseis anos, Elizabeth voltou para Nova York. Bela, vivaz, fluente em francês, uma excelente música e uma talentosa dama, Elizabeth tornou-se uma presença popular em festas e bailes. 
Elizabeth era muito religiosa e usava um pequeno crucifixo em seu pescoço e se deliciava com a leitura das Escrituras, especialmente os Salmos, o que ela fez até a sua morte. 
Quando Elizabeth tinha dezenove anos casou-se com William Magee Seton, um rico comerciante nova-iorquino. Em seguida, habitaram na elegante Wall Street. Sua cunhada, Rebeca Seton, era ‘a amiga de sua alma’, e como elas gostavam de fazer obras de caridade, ficaram conhecidas como “as irmãs protestantes de caridade”.
Problemas de negócios culminaram com a morte de seu sogro em 1798. Deste momento em diante Elizabeth e seu esposo tornam-se o sustentáculo da órfã família Seton.

Em 1803, William Seton foi acometido de uma tuberculose e o casal tentou fazer um tratamento com uma viagem à Itália. Por causa desta viagem, ele vendeu todos os pertences de luxo de sua casa. Somente sua filha primogênita, Ana Maria, os acompanhou nesta viagem à Livorno, onde os irmãos Filicci, amigos de negócios de William, residiam. As outras crianças do casal, William, Ricardo, Rebeca e Catarina, foram deixados aos cuidados de Rebeca Seton.
O esforço de Elizabeth para obter a saúde de seu amado esposo foi descrito em seu diário de viagem. Entretanto, uma quarentena, seguida pela deterioração completa da saúde de William Seton, levou-o à morte em 27 de dezembro de 1803, na cidade de Pisa, aos 37 anos de idade.

Aceitando um convite da família Filicci, decidiu passar um tempo na Itália. No convívio com esta família, e visitando as igrejas italianas, Elizabeth começou a ver a beleza da Fé Católica. Após a doença de sua filha e dela própria, Elizabeth embarcou para casa acompanhada do Sr. Antonio Filicci, aportando em Nova York no dia 3 de junho de 1804. A ‘amiga de sua alma’, Rebeca Seton, faleceu no mês de julho, logo após a sua chegada.

Um tempo de grande perplexidade espiritual começou para Elizabeth. O Sr. Filicci lhe apresentava os esplendores da verdadeira religião. Logo ele conseguiu um encontro entre Elizabeth e o Bispo católico de Nova York. O Sr. Filicci escreve também para o Bispo Carroll. Elizabeth por seu lado rezava para conseguir alguma luz.

Numa quarta-feira, 14 de março de 1805, ela foi recebida na Igreja Católica pelo Padre Matthew O’Brien, na Igreja de São Pedro, em Nova York. No dia 25 de março seguinte, ela recebeu a sua Primeira Comunhão com extraordinário fervor. Tinha agora um grande interesse por este Sacramento, que em seus tempos de anglicana lhe faltava.

Ela bem compreendia a tempestade que sua conversão levantaria entre seus parentes e amigos protestantes, no momento em que ela mais precisava de seu socorro e apoio. Ela perdera o pouco da fortuna de seu esposo, e muitos de seus numerosos parentes poderiam ter proporcionado um sustento para seus filhos, se não tivesse surgido a barreira da sua conversão. Mesmo assim ela ficou firme em sua fé.

Em janeiro de 1806, Cecília Seton, a mais jovem cunhada de Elizabeth, ficou gravemente enferma e pediu para ver a ‘condenada convertida’. Então Elizabeth foi vê-la e tornou-se uma visita constante. Cecília Seton revelou desejar tornar-se católica. Quando a decisão de Cecília foi conhecida, Elizabeth foi ameaçada de expulsão do Estado de Nova York. Após sua recuperação, Cecília fugiu para junto de Elizabeth, a fim de ser recebida na religião católica.

Seus dois filhos foram enviados pelos Filicci ao Georgetown College. Elizabeth esperava encontrar algum refúgio em algum convento no Canadá, onde ela poderia lecionar para sustentar suas três filhas. O Bispo Carroll não aprova e ela tem que abandonar esse plano. O Padre Dubourg, do Seminário de Santa Maria, de Baltimore, Maryland, encontrou-a em Nova York e sugeriu abrir uma escola para moças naquela cidade.

Depois de grande demora e privações, ela e suas filhas chegam à Baltimore na Festa de Corpus Christi de 1808. Seus filhos foram trazidos para Baltimore para estudar no St. Mary’s College; ela abre uma escola próxima à capela do Seminário de Santa Maria.

Numa Quarta-feira de Cinzas, quando entrava na modesta igreja católica de São Pedro, de Baltimore, exclamou: “Ó meu Deus, deixa-me descansar aqui!” Ela podia então assistir às Missas e comungar diariamente.
A sua vida de ascese, vivida desde sua estadia na Itália, era pelo menos praticável agora: era praticamente a de uma religiosa e sua veste fora inspirada nas roupas utilizadas por certas freiras italianas.

Cecília Conway, da Filadélfia, que tinha programado ir à Europa para satisfazer sua vocação religiosa, se junta a ela. Mais tarde outras postulantes chegariam. Entrementes, a pequena escola tem todos os alunos que pode acomodar.
O Sr. Cooper, um convertido e seminarista do Estado da Virgínia, ofereceu US$ 10.000 para Elizabeth fundar uma instituição para ensinar crianças pobres.
Como uma primeira medida para a formação da futura comunidade religiosa, Elizabeth fez voto de pobreza, de castidade e de obediência privadamente, com o Arcebispo Carroll.

Uma fazenda foi comprada em Emmitsburg, a duas milhas de distância do Sr. Mary’s College. Enquanto isto, Cecília Seton e sua irmã Harriet juntam-se a Elizabeth, em Baltimore. Em junho de 1808 a comunidade religiosa se transferiu para Emmitsburg para dar início a uma nova instituição.

O grande fervor e a mortificação de Madre Seton, imitado por suas irmãs, fez com que os inúmeros sofrimentos da nova comunidade se tornassem luminosos.
Em dezembro de 1809, Harriet Seton, que fora recebida na Igreja, falece em Emmitsburg; e Cecília Seton morre no ano seguinte, no mês de abril.
Em 1810 a comunidade solicita ao Bispo Flaget que obtenha a Regra das Irmãs de Caridade de São Vicente de Paulo. Três destas irmãs francesas foram indicadas para ensinar a jovem comunidade a trilhar nas vias e no espírito de São Vicente de Paulo, mas Napoleão proibiu-as de deixar a França.

Com algumas modificações a Regra foi aprovada pelo Arcebispo Carroll em janeiro de 1812 e finalmente adotada. Contra sua vontade e tendo que cuidar de seus filhos, Elizabeth foi eleita superiora.
Muitas se juntaram à comunidade. A filha de Madre Seton, Ana Maria, morre durante o noviciado, mas foi-lhe permitido fazer os votos em seu leito de morte.

Madre Seton e dezoito irmãs fazem os votos em 19 de julho de 1813. O fervor da comunidade ganhou a admiração de todos. A escola para jovens prosperou e dava sustento para as irmãs se dedicarem aos pobres.  Em 1814 foram convidadas para cuidar de um asilo-orfanato na Filadélfia; em 1817 foram enviadas para Nova York.

Na noite de sua morte, Elizabeth, ela mesma, começou as orações para a sua morte e uma das irmãs, sabendo que ela amava a língua francesa, rezou o Glória e o Magnificat em francês com ela. Elizabeth entregou sua alma a Deus aos 46 anos de idade, nas primeiras horas do dia 4 de janeiro de 1821. Suas últimas palavras foram “sejam filhas da Igreja” último conselho dado às suas seguidoras.

Em 1880 o Cardeal Gibbons deu início ao processo de sua canonização. Elizabeth Ana Seton foi beatificada em 1963 e elevada aos altares na Basílica de São Pedro em 14 de setembro de 1975.


terça-feira, 3 de janeiro de 2017

03 de janeiro - São Fulgêncio de Ruspe (Agostiniano)

São Fulgêncio viveu na África do Norte entre os séculos V e VI, em uma época de crise social e perseguição religiosa. A florescente sociedade romana da África do Norte se desmoronava sob os golpes dos vândalos e em sua ruína arrastava consigo a Igreja. A Fulgêncio coube fazer frente a tanta ruína. Sem alcançar a magnitude dos grandes padres do século IV, esteve, contudo, à altura das circunstâncias e, com a santidade de sua vida e a luz de sua doutrina, se tornou referência para os bispos, monges e leigos. “Foi o maior dos teólogos e o bispo mais santo de seu tempo”

Fábio Cláudio Gordiano Fulgêncio nasceu numa rica família cristã em Thelepte, na atual Tunísia (Norte da África), no ano 462. Seu pai era um senador romano e a mãe era de uma família local influente.

Fulgêncio teve uma formação intelectual excelente. De caráter firme, espírito de liderança e habilidade para os negócios, na juventude se destacou na administração dos bens da família, o que o levou a ocupar altos postos no setor público.

Muito culto e educado, Fulgêncio interessava-se tanto pela religião quanto pelas artes e literatura. Frequentava um mosteiro vizinho onde orava com os monges e vasculhava sua biblioteca.

Os biógrafos afirmam que após ler os comentários de Santo Agostinho sobre o Salmo 36, decidiu-se pela vida de austeridade e de solidão.

A África Romana (Norte da África) do seu tempo era o reino dos Vassalos, o que vale dizer que os arianos dominavam e os católicos eram súditos.

O ariansimo é a doutrina de Ário, famoso herege de Alexandria (280-336). Ele pregava que Cristo era uma criatura de natureza intermediária entre a divindade e a humanidade.

A convivência era difícil. O rei Trasamundo havia recomeçado as perseguições aos cristãos.

Fulgêncio tentou ir para o Egito ao encontro dos monges do deserto, mas o navio que o transportava teve de ancorar em Siracusa, onde as notícias dos conflitos da igreja egípcia o fizeram desistir.

Em 500 foi a vez de Roma decepcioná-lo. Na época era governada por Teodorico e os cristãos também estavam submissos. Ele então voltou para a África.

Foi na sua pátria que Fulgêncio se ordenou sacerdote. Em 510, o rei que desejava a extinção total da Igreja proibiu que houvesse sucessores para os bispos , mas os cristãos os  elegiam em segredo e um deles foi Fulgêncio, designado para a diocese de Ruspe, na atual Tunísia.

O rei soube do acontecido e mandou exilar todos os sessenta na ilha italiana da Sardenha, que pertencia aos seus domínios. Pelo menos lá os cristãos viviam em paz.

No mosteiro do exílio, Fulgêncio se tornou professor dos bispos, padres, monges, e conselheiro e pacificador entre a população. Tornou-se, dentro da sua humildade, um líder, uma figura que nem mesmo o rei podia ignorar.

De fato, o rei mandou que ele fosse para a capital, onde o deixou livre para o ministério sacerdotal e pedindo que o ajudasse no esclarecimento das questões de fé. Ou seja, o rei respeitava muito Fulgêncio.

Tanto que o mandou de volta para a Sardenha, só que desta vez para acalmar os súditos arianos radicais.

Durante os anos que ali permaneceu ele escreveu muito. Além de tratados religiosos, manteve uma vasta correspondência com seus discípulos e superiores, bem como com as maiores autoridades da Igreja de então.

Só quando o rei morreu, Fulgêncio pôde retornar para sua pátria e sua sede episcopal em Ruspe. Foi recebido em triunfo, reorganizou a diocese e estabeleceu a ordem e a disciplina. E então durante nove anos, Fulgêncio dirigiu a sua pequena Diocese de Ruspe no estilo bem monástico. Junto à Catedral fizera novo mosteiro, no qual ele mesmo vivia pobremente, dedicando grande parte do seu tempo à oração em comum e à composição de obras doutrinais e pastorais.
 O Santo devolvia aos pobres todo o dinheiro que entrava. Pregava muito bem, fazendo até bispos chorarem.

Morreu no início de janeiro de 533, aos sessenta e oito anos, pregando a caridade como "o caminho que conduz ao céu".

Fulgêncio cultivou intensamente a doutrina agostiniana, como se deduz de suas obras. Sua vida monástica ajusta-se, em linhas gerais, à mentalidade e ao estilo de vida de Santo Agostinho.

Ele foi chamado, com razão, "Agostinho Abreviado". Amou profundamente a vida de comunidade e a comunhão de vida.

Não conseguira viver senão rodeado de monges. Por isso fundou vários mosteiros, tanto em sua pátria como no exílio. A Ordem celebra seu culto pelo menos desde 1581.

O Concílio Vaticano II, no decreto sobre a atividade missionária da Igreja, faz menção ao pensamento de São Fulgêncio expresso em uma carta ao rei Trasamundo.

Oração

Senhor Deus, que nos destes em São Fulgêncio um ilustre sustentáculo da fé e um ardente propagador da vida religiosa, concedei-nos, apoiados em seu exemplo e intercessão, incentivar, com viva fé entre os irmãos, o espírito de unidade e de paz. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo. Amém.



03 de janeiro - Santíssimo Nome de Jesus

A devoção ao Santíssimo Nome de Jesus, já arraigada na Igreja desde os seus alvores, foi pregada e inculcada de modo particular por São Bernardo, por São Bernardino de Sena e pelos Franciscanos, os quais difundiram pequenos quadros trazendo as letras do Nome de Jesus.
  
Em Camaiore di Luca, na Itália, começou-se a celebrar a festa, depois de aprovada para a Ordem dos Franciscanos (1530) e sob o pontificado de Inocêncio XIII (1721), estendida a toda a Igreja.

O nome de Jesus é grande pelo que significa. O nome de Jesus foi posto por Maria e José, em obediência à ordem que lhe viera de Deus. Disse o Arcanjo a Maria: “Eis que conceberás e darás à luz um filho, e lhe porás o nome de Jesus”. (Lc. 1,  31).
A São José o Anjo disse: “Não temas receber Maria, tua mulher; porque o que nela se gerou, é obra do Espírito Santo. E dará à luz um filho, e por nome o chamarás Jesus”. (Mt. 1,  20).

Ora, os nomes impostos a alguém por ordem de Deus significam sempre qualquer dom  gratuito concedido pelo céu, assim como foi dado a Abraão. (Gen. 41,  51): “Serás chamado Abraão, porque te constitui pai de muita gente”. A Pedro foi dado o nome significativo: “Tu és Pedra, e sobre esta pedra edificarei minha Igreja”. Porque a Cristo tinha sido conferido o dom da graça, pela qual todos seriam salvos, era conveniente que fosse chamado Jesus, isto é, “Salvador”. (São Tomás de Aquino).
                                                      
Este nome adorável, que significa salvação, foi predito pelos profetas, que chamaram ao Messias “Emanuel” (Is. 7,14), isto é, Deus conosco, para assim designar  “a causa da nossa salvação, que é a união da natureza divina com a humana, na pessoa do Filho de Deus, que, como Deus, fica conosco, participando da nossa natureza”. Chamaram-no (Is. 9,  6) “admirável, conselheiro, Deus forte, Pai do futuro século, Príncipe da paz”, títulos estes que designam todos o “caminho e o fim da nossa salvação, sendo nós, pelo admirável conselho e pela virtude divina, conduzidos à herança do futuro século, em que gozaremos da paz perfeita dos filhos de Deus, sob a própria soberania de Deus”.  Chamaram-no: (Zac. 6, 12) “o homem, o nascituro”, para exprimir todo o mistério da Encarnação”. (São Tomás).
                                                      
O nome de Jesus é o nome próprio do Verbo encarnado; é o nome que nos relembra o maior das obras de Deus e o maior benefício que d´Ele  nos veio. O nome de Deus Redentor inclui o de Deus Criador, se bem que este não contenha aquele, pois a Redenção supõe a criação e a criação não encerra em si necessariamente a Redenção.
                                                      
O nome de Jesus relembra-nos não só o Salvador e a salvação, que por Ele nos veio, mas também o modo admirável por que fomos salvos. Poderia salvar-nos por meio de uma só palavra, como por uma palavra só criou o mundo; mas quis tomar sobre si nossa enfermidade, para curar e tirar os nossos pecados; quis encarnar-se, nascer num estábulo, viver pobre, sofrer, ser crucificado e morrer por nós.
Levou a humildade e obediência até a morte, para assim merecer o nome de Jesus. Aniquilou-se a si mesmo, tomando a forma de servo – diz São Paulo – “fazendo-se semelhante aos homens e sendo reconhecido pelo exterior como homem. Humilhou-se a si mesmo, feito obediente até a morte e morte de cruz. Pelo que também Deus o exaltou, e lhe deu um nome, que está acima de todo nome. A fim de que ao nome de Jesus todo o joelho se dobre no céu, na terra e nos infernos; e toda a língua confesse que o Senhor Jesus Cristo está na glória de Deus Padre”. (Fil. 2, 7-11).
                                                      
O nome de Jesus produz admiráveis efeitos naqueles que devotamente o invocam. Como os sacramentos não só significam a graça, mas também a produzem, assim o nome de Jesus não só significa, mas também produz a salvação de quem devotamente o invoca.
                                                      
“Todo aquele que invocar o nome do Senhor, será salvo”. (Joel, 2, 22; At. 2, 21; Rom. 10, 12). “Do céu abaixo, nenhum outro nome foi dado aos homens pelo o qual nos cumpra fazer a nossa salvação”. (Rom. 4, 12).
                                                      
O nome de Jesus, devotamente invocado, salva-nos do perigo de sermos vítima do inimigo infernal. Satanás tem um verdadeiro pavor deste Nome. “Os demônios têm medo deste Nome, que os faz tremer. E nós podemos afugentá-los, invocando o Nome de Jesus crucificado”. (São Jerônimo).
                                                      
O nome de Jesus dá vigor aos mártires e a todos os fiéis que lutam pela fé. Fá-los triunfar generosamente de todos os obstáculos, de todas as perseguições e da própria morte. O mundo, à semelhança do demônio, seu soberano, se agita ao ouvir o Nome de Jesus. Queria que não mais se pronunciasse este Nome e cheio de ódio, com o Sinédrio de Jerusalém, até hoje declara: “Ameacemo-los, para que daqui em diante não falem neste nome a homem nenhum”. (At. 4,  17). Mas em virtude deste Santo Nome os eleitos, para a confusão do mundo, operam verdadeiros milagres, segundo a profecia do próprio Salvador: “Em meu nome expulsarão os demônios, falarão novas línguas, manusearão as serpentes e, se beberem alguma coisa mortífera, não lhes fará mal; porão as mãos sobre os enfermos e serão curados”. (Mc. 16, 17).
                                                      
O nome de Jesus produz sempre grande milagre de aplacar as mais furiosas tempestades na alma daqueles que o invocam devotamente.
“Há entre vós alguém que se ache triste? Entre-lhe Jesus no coração e digam-no os lábios; e eis que, ao pronunciar este Nome, as nuvens se dissipam e volta a serenidade. Se entre vós houver quem tenha caído em falta grave e, deixando-se levar pelo desespero, nutrir idéias de suicídio: não voltará ao amor da vida, se invocar este nome da vida?” (São Bernardo)
                                                      
Invoquemos, pois, o Santíssimo Nome de Jesus nas tentações, nas perseguições, na aflição. Invoquemo-lo sempre. “Por ele ofereçamos sempre a Deus um sacrifício de louvor, isto é, o fruto dos lábios que  lhe confessam o nome”. (Hebr. 13,  15). “ Tudo quanto fizerdes, por palavra ou por obra, tudo seja em nome do Senhor Jesus Cristo, rendendo raças por ele a Deus Padre”. (Col. 3,  17). Pronunciemos muitas vezes em vida este Nome de salvação, para que o possamos pronunciar na morte, qual penhor seguro da felicidade eterna.